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Crónica: † D. António Vitalino - A vida vale
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28/02/2011 - 18h10

Crónica: D. António Vitalino - A vida vale

A vida vale
Algumas semanas atrás participei, em Saboia, numa acção promovida pela Fundação Odemira, tendo por tema a vida vale e que faz parte dum projecto que visa diminuir a taxa de suicídios, a quarta mais elevada em toda a Europa e no concelho de Odemira a mais alta de Portugal. Na mesa redonda intervieram vários convidados, provenientes de diferentes meios e áreas científicas. Embora em cada caso concreto haja causas profundas e íntimas que não posso nem quero julgar, no entanto afirmei que a fé, a descoberta do sentido da vida e do próprio sofrimento, podem contribuir para diminuir o número daqueles que voluntariamente põem termo à vida.
Uma terapia gratuita, mas que tem de ser usada preventivamente e a longo prazo, pois a fé que move montanhas não é uma mezinha de desesperados, mas um dom, por um lado gratuito, mas, por outro, alimentado com muito exercício. S. Paulo usava mesmo a imagem dos atletas que treinam diariamente e com muito esforço, para poder chegar à meta, sabendo à partida que apenas um poderá ganhar o primeiro prémio (1 Co 9, 24 ss). Uma coisa é certa, quem não treina, não o ganhará, a não ser que faça batota ou aconteça algum milagre.
Diz-se que os latinos vivem muito do improviso e da sorte. Joga-se muito nas lotarias, usam-se muito as cunhas e os subornos. A sabedoria popular adverte: fia-te na Virgem e não corras! É sobre este realismo da fé e da cooperação da pessoa humana com a sua própria realização, que subjaz a este ditado, que hoje me proponho reflectir e apresentar como terapia para muitos males e doenças da nossa sociedade.
Em primeiro lugar, temos de criar convicções profundas e procurar ser-lhe fiéis, coerentes e consequentes, no percurso diário da vida. Todos estamos convencidos de que a vida é o primeiro e fundamental valor, mas há pouca clareza sobre o que é a vida humana, a sua origem, o seu desenvolvimento pleno, o seu sentido e como se alimenta, de modo a não cair na tentação do seu absurdo e da sua autoliquidação. Quando se põe o acento no aspecto físico ou biológico, sempre efémero e limitado, a frustração torna-se uma companhia constante no percurso de quem assim pensa e facilmente leva ao sem sentido dum tal viver e até mesmo ao desespero. Quem apenas vive para o culto do corpo, rapidamente se verá confrontado com os seus limites. As revistas da alta sociedade e os tablóides exploram muito este aspecto e votam rapidamente ao esquecimento quem perdeu as suas peles esbeltas. A indústria dos cosméticos enriquece e quem vive com estes objectivos depressa empobrece.
Em segundo lugar, precisamos de nos habituar, desde a infância, a saber discernir e optar pelo que é essencial e prioritário, renunciando a muita coisa supérflua, ao desperdício de tempo e de energias em entretenimentos vazios de verdade, de beleza e de bondade. Na educação temos de optar por tudo o que alimenta o espírito com esses valores transcendentais e, a pouco e pouco, reduzir os brinquedos e os passatempos puramente fisiológicos. Nesta área deparamo-nos com muitos erros nos métodos e sistemas educativos, a começar pela família e continuando depois pelos infantários e escolas. Põe-se o acento nos brinquedos, muitas vezes instrumentos de violência, nas amas electrónicas, nos cosméticos e barbitúricos, nas guloseimas, nos desportos radicais, no positivismo dos saberes enciclopédicos, pondo de parte a aprendizagem das relações humanas baseadas no amor, no respeito pelo outro, nos valores espirituais, etc. Dá-se a preferência a tudo o que promove o corpo e as aparências, omitindo-se tudo o que exige esforço, o que alimenta o espírito, alarga os seus horizontes, o habilita para lutar pela vida e ajudar os mais débeis, num espírito de solidariedade e de filantropia. Depois admiramo-nos da violência nas escolas e na sociedade, da apatia perante os que sofrem e da frustração de muita gente jovem, que leva muitos para a marginalização, que destrói e faz sofrer muitas famílias. Neste âmbito é preciso rever profundamente os nossos sistemas educativos e apoiar as famílias que desejam educar na base de valoreshumanos , transcendentes, espirituais e religiosos. Não podemos continuar a pensar apenas na matemática, nas físico-químicas e nas línguas mais comerciais. A língua materna, os valores familiares, as raizes da nossa cultura, a filosofia, a educação moral e cívica têm de voltar a ser importantes no sistema escolar. A formação puramente científica e técnica não satisfaz o espírito humano. Educação com e para os valores dá origem a uma pessoa e a um tecido social harmónico, coeso e com elevado grau de satisfação. Sem eles, criamos pessoas vazias, sem alma, robots.
Em terceiro lugar, estou convencido que os valores religiosos, a fé como relação pessoal com Deus, mesmo que não seja a imagem de Deus dos cristãos, revelada na pessoa de Jesus Cristo, contribuem para fortalecer os dinamismos positivos da vida, como um projecto de esperança, com sentido. O Evangelho proclamado nas igrejas católicas no domingopassado (Mt 6, 24-34) afirmava isso claramente: Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações. A cada dia basta o seu cuidado. É o Reino de Deus e a sua justiça, os valores proclamados e vividos por Jesus Cristo e que as bem-aventuranças resumem admiravelmente, a relação pessoal com a pessoa de Jesus Cristo, num diálogo contínuo de escuta, perguntas e respostas, reflexão, oração e compromisso, é isso que alimenta a nossa fé, a nossa esperança, o sentido da nossa vida, nos dá capacidade para vencer as dificuldades e as crises e nos ajuda a viver menos estressados, menos deprimidos e mais alegres, lutadores e satisfeitos, aguardando o encontro definitivo e profundo com o Criador. Como dizia Santo Agostinho: andava insatisfeito e inquieto até descobrir Aquele que habita no mais íntimo e profundo demim mesmo.
É esta experiência de vida e de Deus que a Igreja deve proporcionar a todos os que procuram o sentido das suas vidas. Como dizia Karl Rahner, um grande teólogo alemão que influenciou muito o pensamento na Igreja da segunda metade do século XX, o cristão do futuro tem de ser um místico e um mistagogo, ou seja, fazer a experiência de Deus e ajudar outros a fazê-la. Precisam-se muitos destes mestres.

Até para a semana, se Deus quiser


† António Vitalino, Bispo de Beja


radiopax

Posted: 2011-02-28 18:10:00



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Actualizado em ( Segunda, 28 Fevereiro 2011 20:12 )
 

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