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Memórias de um médico no concelho de Odemira
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SEGUNDA-FEIRA, 7 DE MAIO DE 2012

Memórias de um médico no concelho de Odemira


Para certas pessoas a vocação define-se de forma tão clara e natural, que se torna quase impossível ignorá-la. Para elas, a identidade e a profissão confundem-se quase sempre de tal forma, que parecem evoluir indistintas, moldando-se mutuamente, sem nunca perder a aparente unidade com o fluir do tempo.
A vida de Carlos Correia de Almeida Bastos aponta para que tenha sido esse o seu caso. Nascido em 1888 no bairro de Alfama, iniciou os estudos superiores na antiga Escola Médico-Cirúrgica, ao Campo de Santana, tendo concluído a licenciatura em 1914, na recém criada Faculdade de Medicina de Lisboa. Entre os seus professores, destacavam-se várias figuras impares da época, a quem expressou o seu apreço na tese de final de curso. Desse escol faziam parte Egas Moniz, Francisco Gentil, Gama Pinto, Júlio de Matos e Ricardo Jorge.
O interesse pela obstetrícia levou-o a estagiar voluntariamente na enfermaria-maternidade do Hospital de São José, onde teve os primeiros contactos com uma especialidade em que mais tarde se viria a notabilizar. Assistente do conceituado professor Aníbal de Castro, augurava-se-lhe uma promissora carreira na capital, tanto a nível clínico como académico. No entanto, por motivos pessoais e familiares, abandonou Lisboa, refugiando-se numa pequena aldeia do concelho de Odemira, onde em 1917 ocupou o cargo de Médico Municipal.
Por essa altura, São Martinho das Amoreiras era uma povoação isolada, com poucos habitantes, inserida numa região essencialmente rural. Aos poucos, apesar da sua juventude e inexperiência, foi conquistando a confiança dos habitantes da aldeia e das freguesias limítrofes, muitas das quais sem médico residente. Talvez por ter encontrado na profissão um suporte essencial ao seu equilíbrio, adaptou-se com aparente facilidade à vida da província. Constituiu família e os filhos foram nascendo. Naquele tempo, ainda se faziam consultas nas farmácias locais, tendo exercido também parte da sua actividade na então Farmácia Pargana, o que garantia aos doentes a vantagem de poderem aviar rapidamente os remédios. As hóstias, os pós, os xaropes e as pomadas eram então manipulados, respeitando criteriosamente as percentagens indicadas nas receitas, onde se encontravam também descriminadas as doses diárias prescritas. Por vezes, devido a impossibilidades técnicas locais, era necessário recorrer a laboratórios de Lisboa, como o Instituto Biológico Português. No entanto, devido ao atraso dos correios, frequentemente, quando o medicamento chegava, já o paciente tinha morrido.
As visitas ao domicílio, sobretudo aos “montes”, eram também habituais. Particularmente penosas, devido não só aos maus caminhos, como também à distância que separava aqueles locais da sede de freguesia, via-se amiúde obrigado a deslocar-se a pé ou a cavalo.
Perfeitamente integrado na vida da aldeia, sempre que os compromissos profissionais lho permitiam, reunia-se à noite no estabelecimento da firma “Sebastião Figueira & Sobrinhos”, onde se vendiam fazendas, farinhas, adubos e livros, entre outros produtos. Ali se encontrava para dois dedos de conversa à luz do petromax com algumas figuras típicas da terra: o mestre Zé Jacinto, maestro da Banda Filarmónica de São Martinho das Amoreiras, a quem ofereceu uma batuta de prata que havia recebido de herança; o padre José António Santiago, antigo prior da freguesia, entretanto excomungado por ter filhos e netos, mas a quem a população continuava a tratar como tal; o dono da farmácia, Eurico Martins Pargana, entre vários conhecidos ou amigos.
A horas tardias, eram muitos os que se dirigiam à loja para o chamar, a fim de atender doentes no consultório ou no domicílio. Alguns eram casos simples, fáceis de resolver, outros, desesperados e sem qualquer tipo de solução, como acontecia com a tuberculose, que na altura constituía um verdadeiro flagelo, atingindo sobretudo os mais carenciados. No entanto, a confiança que o seu nome inspirava, servia de paliativo ao desespero tanto dos doentes como das famílias. E ele lá ia, fosse curta ou longa a distância.
Leitor assíduo do “Século” e do “Diário do Alentejo”, foi das primeiras pessoas em São Martinho das Amoreiras a ter uma radiotelefonia, alimentada por aerodínamo, onde ouvia sobretudo os noticiários e muita música sinfónica. Durante a 2ª Guerra Mundial, instalou um altifalante na janela, de modo que as pessoas da terra pudessem acompanhar o desenrolar dos acontecimentos.
Por altura de certas epidemias, iam buscá-lo de monte para monte, o que o obrigava a pernoitar na casa dos doentes, passando, por vezes, semanas fora do seu domicílio. Numa das ocasiões, tendo o paciente falecido, alguns vizinhos que iam velar o corpo, enganavam-se na cama e, levantando o lençol para ver o defunto, deparavam com o médico, que deste modo passou a noite praticamente sem dormir.
A reconhecida competência científica fazia com que fosse chamado com frequência por colegas, alguns até de freguesias distantes, para integrar as chamadas conferências médicas, no decorrer das quais eram analisados casos clínicos difíceis.
Apesar de viver na província procurou sempre actualizar os conhecimentos, tendo conta corrente na Livraria Sá da Costa, ao Chiado, de onde recebia os mais recentes livros e revistas da sua área profissional. Nunca cortou, aliás, os laços com Lisboa, onde se deslocava algumas vezes para assistir a reuniões científicas, na altura pouco frequentes, e para visitar familiares. Aproveitava também essas alturas para comprar literatura e actualizar o guarda-roupa, sempre esmerado.
Cultivando o bom relacionamento em geral com as pessoas, nunca tolerou despotismos. Alguns recordam ainda que se terá incompatibilizado com um indivíduo, autoritário e arrogante, que ofendeu o seu amigo e compadre Martins Pargana. Quando, mais tarde, aquele veio a precisar dos seus serviços, manifestou receio de ser mal atendido. Ao sabê-lo, comentou ironicamente ao chegar à casa do doente: Entra o médico. O homem fica á porta! Consta que o atendeu do mesmo modo como tratava os restantes pacientes.
Apesar de ser clínico geral, a obstetrícia constituía um campo que lhe interessava especialmente, sendo acompanhado, nesta área, por senhoras da terra, na sua maioria mães de vários filhos, cuja experiência lhe era bastante útil, e que, embora sem formação técnica, funcionavam quase como enfermeiras parteiras. Foram muitos os que ajudou a nascer, tendo feito o último parto já em precárias condições de saúde.
Não obstante o elevado volume de trabalho, a clínica privada nunca lhe deu grandes rendimentos, porque se a uns não tinha coragem de cobrar devido à miséria em que viviam, outros, aproveitando-se do seu desapego, não lhe pagavam apesar de o poderem fazer. Mesmo assim, até os mais carenciados não deixavam de lhe agradecer, oferecendo-lhe ovos, galinhas, hortaliças, fruta e outros produtos provenientes de uma economia doméstica, que muitas vezes mal lhes garantia a subsistência.
Profundamente humano, sentia e sofria os problemas alheios, defendendo com frequência, numa crítica clara ao regime de então, que a assistência médica deveria ser gratuita para todos os necessitados. E a pobreza era mesmo muita nessa altura, tanto no Alentejo como no resto do país.
Após quase trinta e cinco anos dedicados à profissão, faleceu no dia 7 de Março de 1949, tendo tido o maior funeral de que há notícia até àquela data em São Martinho das Amoreiras. Não deixou bens, muito pelo contrário, a família ficou na miséria. O montante que lhe deviam era considerável, tal como os filhos constataram através de duas agendas encontradas no seu espólio, nada tendo sido pago após a sua morte. Na sequência do 25 de Abril, atiraram-lhe os ossos para uma vala comum, embora na altura do falecimento a Junta de Freguesia de então tivesse doado verbalmente (!) a campa à viúva.
Mesmo assim, não poderia ter deixado maior legado: permanecer na memória dos que o conheceram como alguém cujo sentido do dever e a humanidade prevaleceram sempre sobre o materialismo. Foi, de facto, uma curta vida dedicada de forma intensa e abnegada a uma longa arte: a arte da cura.
Margarida Almeida Bastos (Condensado do artigo “Uma curta vida para uma longa arte”, publicado no nº11 da revista ALDRABA)



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