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Sotaques na planície
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Alex, Marlena Zamur, Nicola Di Nunzio e Siegfried Kraus (Zig)

Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

texto: Carlos Pinto

Cerca de 6.500 estrangeiros vivem no distrito de Beja
Sotaques na planície

EMIGRAÇÃO. Há bastantes baixo-alentejanos a trabalharem além-fronteiras, mas são também muitos os estrangeiros que têm na planície a sua verdadeira "casa".
Se há ironias perfeitas, a da primeira viagem de Nicola di Nunzio para Portugal é uma delas. Em 1985 este italiano nascido na Alemanha arrumou a trouxa no seu Alfa Romeo Spider verde descapotável e partiu rumo a um pequeno ponto no mapa localizado no sul da Europa. De Weil am Rhein a Beja eram mais de 2.000 quilómetros e o jovem Nicola desconhecia por completo o que iria encontrar na recôndita base aérea para onde tinha sido transferido pelas forças militares alemãs. Arrancou com o coração nas mãos, desconhecendo que aquela viagem era de sentido único.
   "Vim para Portugal sem marcha-atrás e realmente foi isso que aconteceu. Passei cá seis anos e só depois me fui embora. Ainda estive em Itália, mas depois conheci a minha esposa e, pouco a pouco, fui regressando a Portugal", conta ao "CA" o agora fotógrafo Nicola di Nunzio, residente em Beja desde 1999.
   Nicola é apenas um dos quase 6.500 estrangeiros que vivem no distrito de Beja. De acordo com os últimos dados disponibilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), referentes ao ano de 2010, na região residem 6.455 estrangeiros, na sua grande maioria nos concelhos de Odemira (2.831) e Beja (1.238). As maiores comunidades são de brasileiros, romenos e búlgaros, mas também há sul-africanos, cubanos, egípcios, norte-americanos ou israelitas, num total de 78 nacionalidades. Todos chegaram em busca de uma vida melhor e muitos ficaram, sendo hoje verdadeiros alentejanos… ainda que com um sotaque ligeiramente distinto.
   
Planície de luz
   Histórias como a de Nicola di Nunzio são relativamente frequentes na cidade de Beja. Filho de pais italianos, di Nunzio nasceu numa pequena cidade do sul da Alemanha e por querer seguir a tradição militar dos avós (ambos combatentes por Itália em África) acabou por alistar-se como voluntário nas forças armadas germânicas. Entrou como fotógrafo na Força Aérea Alemã (a Luftwaffe), mas rapidamente entendeu que andar de farda não era como tinha sonhado.
   "Percebi que a tropa não era aquilo que imaginava e por ser descendente de italianos até notei em certas pessoas alguma antipatia", revela Nicola, hoje com 48 anos, que começou por pedir transferência para a Sardenha (Itália), mas acabou em Beja, onde chegou em 1985. As diferenças da Alemanha industrializada para o Portugal rural eram então gigantescas. 
   "Havia aquela diferença entre um povo e outro, o que para mim era interessante", lembra o fotógrafo, que acabou por ficar seis anos em Beja e apaixonar-se pela luz da planície. "Na Alemanha, tal como hoje, vivia-se numa ‘caixinha’, com muitas regras. E em 1985 não havia nada disso em Portugal! Havia uma liberdade brutal, especialmente na paisagem", explica di Nunzio, que sentiu um nó no peito na hora do adeus a Beja.
   As voltas do destino acabaram, contudo, por "devolvê-lo" ao Baixo Alentejo, após ter conhecido a actual mulher (natural de Mértola e mãe de dois dos seus filhos, uma rapariga com 10 anos e uma rapaz com nove) durante uma passagem ocasional pela Feira de Castro. Pouco depois, em 1999, Nicola di Nunzio regressava em definitivo a Beja, onde realiza grande parte dos trabalhos fotográficos que depois vende para a Alemanha ou Itália. O negócio corre bem mesmo em tempo de crise, mas tal não o impede de pensar no retorno à pátria dos pais e avós. "A ideia de regressar existe, mas vamos ver", confessa.
   
Alemão não, português!
   Tal como Nicola di Nunzio, também o alemão Siegfried Albert Kraus (mais conhecido por Zig) se deixou apaixonar por Beja. Um amor que começou a 27 de Fevereiro de 1983, quando estacionou o seu Toyota amarelo junto à porta de armas da base aérea e já depois de ter sido "burlado" na fronteira em Vila Verde de Ficalho. "Já viu, fui logo redondamente enganado por um oficial das alfândegas", recorda entre dois sorrisos.
   Dono de uma pronúncia quase irrepreensível, Zig é um "alentejano" natural de Uhingen/ Fils (perto de Estugarda), onde nasceu há 51 anos. Hoje é proprietário de uma oficina de reparação de equipamento audiovisual no Parque Industrial de Beja, depois de ter chegado ao Baixo Alentejo por acaso, ocupando a vaga de um colega militar que entretanto desistiu da viagem para Portugal. Esteve na base aérea quatro anos como reparador de aparelhos de transmissão e recepção de rádio em terra e findo o contrato com a Luftwaffe optou por ficar, cativado pela "franqueza" e "simpatia" dos bejenses.
   Membro do Coro de Câmara e do Cantinho dos Animais, além de autor de um dos blogues mais lidos da cidade, Zig garante que não se sente "emigrante em Beja" e que o seu país "é Portugal e não a Alemanha". Talvez por isso só contasse regressar à Alemanha na idade da reforma, mas as complicações do presente e o facto de ter uma filha de 19 anos a estudar em Santarém levam-no a ponderar todas as hipóteses. 
   "Gostaria muito de ficar cá e só mesmo em último caso é que vou sair. Tenho cá muitos amigos, tenho cá a minha filha e a convivência que tenho aqui faz-me estar dividido", argumenta.
   
Regressar? Talvez…
   Ao contrário de Zig, Alex (diminutivo de Alexandro Lima) nunca deixou de sonhar com o regresso a "casa". "Sinto muitas saudades do Brasil", diz com os olhos rasos de lágrimas. "Sei que pode parecer injusto da minha parte, porque Portugal me deu muita coisa, mas nunca deixei de pensar em voltar", acrescenta este brasileiro de 35 anos, natural de São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo.
   Antigo jogador do São Paulo e da Portuguesa dos Desportos, Alex aterrou em Portugal a 10 de Agosto de 2000 com o objectivo de assinar pelo Vitória de Setúbal e cumprir o sonho de ser futebolista profissional na Europa. Mas impedimentos burocráticos "empurraram-no" para Castro Verde, de onde nunca mais saiu. 
   Na vila campaniça continuou a jogar futebol no FC Castrense e a esperar por novas oportunidades. Entretanto, começou a trabalhar para a Câmara Municipal e encontrou a sua esposa, uma sul-africana que está em Portugal desde os 12 anos. Hoje Alex é pai de duas crianças (um rapaz com nove anos e uma menina com dois), trabalha na mina de Neves-Corvo e continua a ser futebolista amador em Almodôvar. "Não me arrependo de nada, porque sempre tive uma mentalidade de que as coisas quando têm de acontecer acontecem. No meu caso, acho que o destino não quis que a minha carreira vingasse por esse lado", conta ao "CA".
   Apesar de já estar há mais de uma década no Baixo Alentejo, Alex ainda estranha (e muito) a pacatez de Castro Verde. "Daqui a 10 ou 20 anos talvez esteja adaptado a este sossego e a esta calmaria. Mas para quem foi criado na confusão de São Paulo, a diferença é gigantesca", frisa.
   Para já, Alex sente-se confortável com a "vida digna" que leva em Castro Verde e admite ficar por cá muitos mais anos. Mas ao mesmo tempo, não descarta a possibilidade de um dia voltar a cruzar o Atlântico sem data de regresso no passaporte. "Tenho pensado muito no regresso, sobretudo nos últimos meses, mas seria como começar quase do zero! Acima de tudo, não quero pôr em risco o futuro dos meus filhos pelo capricho de voltar ao meu país", diz.
   
Da Polónia com amor
   Quem não pensa regressar ao país onde nasceu é Marlena Zamur, que chegou ao Baixo Alentejo por razões… do coração. "Vim por amor [risos]. Conheci o meu marido em Pádova (Itália) e depois de dois anos de relação decidimos experimentar viver juntos. Foi então que me mudei para Aljustrel", conta esta polaca de 36 anos, cabelos claros, olhos azuis e três filhos de tenra idade.
   Natural de Radom, a uma centena de quilómetros a sul da capital Varsóvia, Marlena chegou à vila mineira há pouco mais de oito anos e depois de algum tempo a viver em Pádova, onde estudava para ser estilista. O o amor falou mais alto e acabou por decidir deixar tudo para trás e seguir o chamamento da paixão.
   "A maior diferença que notei foi o clima. Aqui há muito Verão e eu não gosto muito de calor", revela Marlena, que sentiu também dificuldades à mesa. "Os sabores são muito fortes, com muitas carnes e enchidos. Isso não é para mim, que sou mais vegetariana. Ou melhor, semi-vegetariana, que também como peixe. Mas é difícil ser-se vegetariana no Alentejo. Passo fome [risos]", graceja.
   Marlena é boa conversadora e fala pelos cotovelos. Talvez por isso tenho notado ser "difícil fazer amizades" no Baixo Alentejo. "As pessoas são muito fechadas. São amigos desde o infantário e depois não se abrem muito a novas pessoas", argumenta com a sua leve pronúncia italiana, língua que já dominava e lhe facilitou a aprendizagem do impecável português em que se expressa. "Mas ainda troco algumas palavras em português por outras italianas", confessa entredentes.
   Desde que chegou a Aljustrel, Marlena tenta ir com frequência à Polónia, o que acontece com cada vez menor frequência. O regresso definitivo não entra nos seus planos, mas também admite que dificilmente se sentirá, um dia, uma verdadeira alentejana. "De adopção sim, de sangue não".
   
   
   
   
ALEX
   Brasileiro – vive em Castro Verde
   
   "Portugal deu-me muita coisa, mas nunca deixei de pensar em voltar ao Brasil."
   
   
MARLENA ZAMUR
   Polaca – vive em Aljustrel
   
   "A maior diferença que notei foi o clima. Aqui há muito Verão e eu não gosto muito de calor."
   
   
NICOLA DI NUNZIO
   Alemão/ italiano – vive em Beja
   
   "Vim para Portugal sem marcha-atrás e realmente foi isso que aconteceu."
   
   
SIEGFRIED KRAUS ( ZIG)
   Alemão – vive em Beja
   
   "Gostaria muito de ficar cá e só mesmo em último caso é que vou sair para a Alemanha."
   
   
   
   
Eles vieram para ficar!
   
   
NÚMEROS
   
2.831 Estrangeiros residem no concelho de Odemira. Seguem-se Beja (1.238), Moura (636), Serpa (275) e Ferreira do alentejo (259). o concelho com menos estrangeiros residentes é Barrancos, que regista apenas cinco.
   
   
1.100 Brasileiros residem no distrito de Beja, formando a maior comunidade estrangeira na região. no baixo alentejo vivem também muitos Romenos (1.068) e Búlgaros (896), num total de 6.455 estrangeiros de 78 nacionalidadades.
   
   
   
   
   
Alex.
   Natural de São Bernardo do Campo (São Paulo), Alex tem 35 anos e chegou a Portugal para jogar no Vitória de Setúbal. Acabou por rumar ao FC Castrense e a Castro Verde, terra onde hoje vive com a sua esposa (uma sul-africana) e os seus dois filhos.
   
Marlena.
   Foi o amor que fez a polaca Marlena Zamur trocar a cidade italiana de Pádova, onde estudava, por Aljustrel, onde vive com o marido e os seus três filhos. Há oito anos que mora na "vila-mineira" e confessa que ainda não se habituou... ao calor!
   
   
Nicola
   Chegou a Beja sem marcha-atrás no carro e o que é certo é que nunca mais deixou de estar ligado ao Baixo Alentejo. Casado com uma mertolense, com quem tem dois filhos, Nicola di Nunzio é fotógrafo de profissão e adora a luz da planície dourada.
   
   
Zig
   Quando chegou a Portugal, em 1985, foi logo burlado à fronteira, mas mesmo assim Siegfried Kraus acabou por ficar em Beja. Já lá vão 27 anos e hoje são poucos os bejenses que não conhecem o "Zig" do blogue, do Coro de Câmara e do Cantinho dos Animais!
Mais estrangeiros em Odemira, Beja e Moura
De acordo com os últimos dados estatísticos disponibilizados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, referentes ao ano de 2010, na região residem 6.455 estrangeiros (3.579 do sexo masculino e 2.876 mulheres), na sua grande maioria nos concelhos de Odemira (2.831), Beja (1.238) e Moura (636).

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