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Onde a solidão mata
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Onde a solidão mata

Odemira tem a maior taxa de suicídios da Europa e o problema afecta sobretudo os idosos. Isolamento, pobreza e falta de apoios são as suas razões. O projecto "A Vida Vale" nasceu para as contrariar

Luciana Leiderfarb e Tiago Miranda
19:27 Quinta feira, 5 de julho de 2012
Jacinto Coelho, o único habitante do Monte Mal Pensado, perto de Sabóia

Jacinto Coelho é o único habitante do Monte Mal Pensado. Nasceu numa casa de pedra sem janelas, sem água canalizada nem electricidade, a 30 quilómetros de Odemira. Foi ali que viveu com os pais e os sete irmãos, que já morreram ou emigraram, deixando-o sozinho. Entretanto, passaram 84 anos. E a horta que outrora lhe garantia o sustento é hoje um destroço entregue aos rigores do clima, o telhado que um dia o protegeu da intempérie se transformou num conjunto de remendos em perigo de ruir, e a paisagem passou a incluir uma central eléctrica que o excluiu a ele, apesar de se erguer a escassos metros da sua casa. Lá fora, na fachada, está o painel solar que a Câmara lhe ofereceu e que o autoriza a um luxo que os seus pais nunca tiveram: algumas horas de luz e de rádio por dia, no meio do silêncio inexorável da serrania.

Jacinto Coelho nasceu há 84 anos nesta casa se luz nem água canalizada. O painel solar oferecido pela Câmara garante-lhe algumas horas de electricidade por dia

Há pouco mais de nove meses, a Unidade Móvel de Saúde de Odemira percorreu pela primeira vez o caminho de terra que une o Monte Mal Pensado ao resto do mundo e encontrou Jacinto consumido por uma magreza extrema. Alto e apessoado como sempre fora, pesava apenas 39 quilos. Os técnicos providenciaram que o Lar mais próximo lhe garantisse o almoço e referenciaram o seu caso a Fabio Medina, psicólogo de "A Vida Vale", que desde então o visita regularmente. Essa simples presença veio aliviar o isolamento a que vivia remetido, separado dos únicos vizinhos por hectares de terra, sem meios de locomoção e com um telemóvel que, além de não saber usar, raras vezes acusa rede.

Cília Campos, coordenadora de A Vida Vale, com Jacinto Coelho

Jacinto Coelho era, aos olhos de Fabio Medina, um alvo obrigatório de atenção. Era um dos típicos idosos de Odemira, o maior concelho do país e um dos mais dispersos em termos populacionais, onde as pessoas, em especial os mais velhos, tiram a própria vida a um ritmo que quintuplica a média nacional (com 55,6 óbitos anuais por cada 100 mil habitantes face aos 10,32 do país) e supera largamente a europeia. E era, sobretudo, um morador da freguesia de Sabóia, que as estatísticas identificam como tendo a maior taxa de suicídios do mundo. O projecto "A Vida Vale", promovido pela Fundação Odemira, surgiu em 2011 para prevenir e tentar inverter esta realidade. Um ano de trabalho no terreno, porém, ensinou à equipa que suicídio é palavra a evitar por estas paragens.

"Ser isolado em Lisboa é uma coisa. Sê-lo num monte sem água nem luz, nem telefone, é outra completamente diferente" diz Cília Campos

"Não é um tabu, só não entramos na casa das pessoas a dizer que queremos reduzir os níveis de suicídio. Centramo-nos na diminuição do isolamento, que é um dos principais factores de risco", esclarece Fabio, o rosto que os quase 100 idosos isolados de Sabóia se habituaram a receber e a quem recorrem em caso de necessidade. Duas vezes por semana, este psicólogo suíço formado em Genebra percorre cerca de 120 quilómetros com a carrinha, batendo à porta dos que há muito a fecharam a estranhos, obrigando-os a recuperar os gestos de uma comunicação interrompida. No início, chocou-o "a falta de meios", mas depressa percebeu que não era isso o que mais incomodava estas gentes. "Elas sempre viveram assim. Com a pobreza podem bem. O mais duro é não terem qualquer apoio, é estarem isoladas geográfica e socialmente", diz Fabio Medina.

Aníbal Margarido é dono de seis cabeças de gado. "Matar-se é o destino desta gente", afirma

Acompanhá-lo numa das suas rondas é confirmar a existência de um Portugal que parou no tempo. É, por exemplo, escalar o monte até à casa de Manuel Matias, de 84 anos, e ouvi-lo contar como desce o trilho até ao poço e depois carrega encosta acima os baldes de água, e como o vem fazendo diariamente, faça chuva ou sol, há 46 anos. É encontrar Teresa, uma das raras moradoras da freguesia que tem saneamento básico (ao contrário de 65% dos casos seguidos por Fabio). É ver Maria, de 86 anos, viúva e analfabeta, acenar com a cabeça e dizer "hoje sou, amanhã já não sou". E é ser-se avassalado pela frontalidade de Aníbal Margarido, um solteiro de 80 anos, dono de seis cabeças de gado: "Matar-se é o destino desta gente. Contente ninguém se mata. Eu não digo que não. Se uma pessoa está entregue aos outros e se mata, faz um governo bom."

Manuel Matias, de 84 anos, vive nesta casa. Há 46 anos que carrega encosta acima os baldes de água, todos os dias, faça chuva ou sol

Na saída de uma curva encontramos a casa que Vidaul Santos, de 75 anos, erigiu há mais quatro décadas. Aqui nasceram os seus cinco filhos, dos quais apenas três sobreviveram. Nascido numa aldeia próxima, fez a 4ª classe e saiu da terra aos 14 anos para "andar como os pássaros". Trabalhou em Vila Franca de Xira, em Tomar e em Lisboa, antes de voltar para estes quatro hectares e constituir família. É ao pé do lume sempre aceso que nos mostra as quatro espingardas que guarda dentro de portas, todas carregadas: "Uma é minha, as outras eram de parentes que foram morrendo. A polícia disse-me para as ter desarmadas, mas de que é que isso serve? É quando os ladrões estão a levar tudo que vou carregar as armas?" Vidaul afiança que, por cá, "as pessoas matam-se muito" e admite que só o faria em certas circunstâncias: "Se me visse atado de pés e mãos, sozinho, dependente, ou se quem me ajudar viesse contrariado." Esta frase confirma a opinião de Fábio Medina, para quem "o suicídio é visto como uma solução, ao nível de qualquer outra. É algo cultural e tem a ver com um catolicismo pouco arreigado."

Vidaul Santos tem quatro espingardas em casa, todas carregadas. Se se visse "atado de pés e mãos", admite que as usaria contra si próprio

"Ser isolado em Lisboa é uma coisa. Sê-lo num monte sem água nem luz, nem telefone, é outra completamente diferente" diz Cília Campos, socióloga e coordenadora de "A Vida Vale", projecto cotado na Bolsa de Valores Sociais. Porém, "muitos idosos queixam-se de estarem sós, mas não aceitam ir para o Lar. Não querem deixar as suas raízes. E alguns reclamam das condições de vida, mas poderiam estar melhor". São as contradições de um terreno de matemática inexacta, de hábitos arreigados e de aversão à mudança. Manuel Paulino é um destes casos. Cília conheceu-o numa volta pelos montes, em Vale Touriz: olhou para cima e viu um casebre que parecia abandonado. Ao subir o íngreme caminho de cabras até à entrada, encontrou o seu proprietário.

Este homem de 72 anos cansados, cego de uma vista, vive há oito neste lugar, a 33 km de Odemira. Tem um pequeno carro, que usa para visitar o filho e os netos, residentes em Portimão. Ele próprio trabalhou quatro décadas no Algarve (foi funcionário autárquico) até decidir voltar à zona onde nasceu e a este terreno herdado do pai, com uma casinha no cimo. Será preciso entrar na sua escuridão cerrada para entrever os contornos de uma ruína sem janelas, água e luz eléctrica, onde espessas teias de aranha pendem da telha vã e restos de lume jazem no chão de pedra. Vestígios de comida, beatas de cigarros e embalagens vazias convivem com os seus magros pertences.

"No ano passado, o Manuel Paulino teve um AVC e disse que o dia mais triste da sua vida foi quando saiu do hospital. Porque ali tinha cuidados, cama e comida", conta Cília Campos, para quem este idoso, menos isolado que outros e com uma reforma menos proibitiva, perdeu os parâmetros sociais e de salubridade. Daí que a socióloga se apressasse a integrá-lo nas actividades semanais do projecto - conversas em grupo, yoga do riso e um atelier de canto, entre outros - que costumavam realizar-se na Junta de Freguesia de Sabóia mas, desde março passado, decorrem na nova sede de "A Vida Vale", em Vale Touriz, no que um dia foi uma escola primária. A centenas de metros da casa de Paulino. Provado o sucesso desta iniciativa em Sabóia, deu-se o passo seguinte: o seu alargamento a outras freguesias do concelho com a mesma problemática, como Santa Clara, Pereira, Luzianes e S. Martinho das Amoreiras. "Conseguimos aquilo que nos propusemos, que foi ter uma acção preventiva e fornecer às pessoas uma rede de segurança", resume Paulo Trindade, presidente da Fundação Odemira.

O espaço de Vale Touriz tornou-se rapidamente numa segunda casa para muitos destes utentes, entre os quais Manuel Paulino que, a cada reunião, reencontra caras conhecidas com quem há anos não trocava palavra. Jacinto Coelho também costuma participar. Ganhou três quilos desde que o sinalizaram. Vai apenas para "estar". O que é indescritivelmente mais do que ficar no seu monte, a sós com a memória de um tempo em que tudo foi, não melhor, mas igual.

São claramente os idosos que se suicidam mais
Onde a solidão mata
Em 2011, Odemira foi o concelho que apresentou a mais elevada incidência de suicídios em Portugal, com uma taxa de 55,6 óbitos anuais por cada 100 mil habitantes face a uns magros 10,32 no resto do país. O maior concelho português e um dos mais dispersos em termos populacionais ostenta igualmente um índice anual de envelhecimento de 226,7, que contrasta com o de 120,1 no restante território nacional. Dos seus 25.089 habitantes, 12.800 têm entre os 25 e os 64 anos, 6700 ultrapassam os 65 anos e apenas cinco mil se situa abaixo dos 24 anos.

Em 2009, os dados referentes ao suicídio impeliram à criação do Observatório do Suicídio e Para-Suicídio do Baixo Alentejo, órgão de cariz consultivo que monitoriza esta realidade na região. Isabel Santos, a sua coordenadora, confirma que os números correspondentes ao Baixo Alentejo e Odemira entre 1993 e 2010 "têm sido quase sempre três vezes mais elevados do que os nacionais", com picos em 1993 (45,1 por cada 100.000 habitantes) e em 2007 (32,3 por cada 100 mil habitantes).

Além do trabalho estatístico, a também chefe do departamento de psiquiatria do Hospital de Beja dá conta daquilo a que o Observatório chama de "perfil descritivo do suicida", apurado a partir de 172 casos analisados entre 2007 e 2010. Segundo as conclusões do perfil, 86,5% por cento dos que tiram a própria vida são do sexo masculino e 80% apresentam alguma perturbação mental, seja por factores genéticos, biológicos ou somáticos. "Muitos destes casos não recorrem ao serviço de psiquiatria ou têm muita dificuldade no acesso aos cuidados de saúde continuados", diz Isabel Santos.

Acrescem factores de ordem cultural - como a "baixa religiosidade das populações" - e social/territorial: "Este distrito é o mais extenso em área geográfica, possui uma grande dispersão da população e um difícil acesso aos transportes. Por outro lado, apesar da taxa de suicídios ser a mais alta do país e de haver uma elevada prevalência de doenças mentais, é o distrito com maior carência de psiquiatras em Portugal e o único que não tem internamento psiquiátrico."

Para Isabel Santos, "são claramente os idosos que se suicidam mais", havendo muitos casos de depressões não detectadas. E são, sobretudo, idosos em situação de isolamento "geográfico e afectivo". "O agravamento do cenário socioeconómico tende a aumentar o risco", conclui a psiquiatra, "tornando mais acentuados os sintomas de desesperança e de depressão".

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