Quarta, 12 Setembro 2012 08:23    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
“A ideia era associar a criação com um pequeno parque temático”
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João Direitinho, proprietário da Ostrichland

“A ideia era associar a criação com um pequeno parque temático”


“A ideia era associar a criação com um pequeno parque temático”

“A avestruz é um animal curioso, desperta bastante interesse e essa vertente turística foi pensada” no projeto da Ostrichland. Na herdade chegaram a existir outros animais, “como emas e gamos”, mas os “problemas com a insegurança, o vandalismo e os assaltos” pesaram na decisão de suspender essa vertente. O proprietário explica que está “numa fase de remodelação”, pois “tem estado a vender a produção toda em ovos” e, por isso, não tem “incubações, nascimentos e animais nas diversas fases de crescimento” que poderiam ser atrativos interessantes “para se fazer visitas de estudos”, até porque era, “até ao início deste ano, a maior produção de avestruzes em Portugal”. João Direitinho, em entrevista ao “Setúbal na Rede”, considera “a segurança era um fator fundamental” para voltar a apostar na oferta turística, além de que “era necessário melhorar as acessibilidades”.

“Setúbal na Rede” - Até que ponto a atividade da Ostrichland pode ser potenciada do ponto de vista turístico?

João Direitinho - A avestruz é um animal curioso, desperta bastante interesse e essa vertente turística já foi pensada. Talvez agora não seja a melhor altura, até porque tenho estado a vender a produção toda em ovos e por isso não tenho incubações, nascimentos e animais nas diversas fases de crescimento. Teria muito mais interesse com o processo por completo, porque as incubações são semanais, daria para fazer visitas que permitiam ver os animais a sair do ovo, os diversos tamanhos e falar um bocadinho sobre o ritual de acasalamento, o comportamento dos animais, uma vez que é um animal diferente e exótico que atrai a curiosidade por parte de muita gente. Por outro lado, a casca dos ovos pode ser trabalhada, pintada e esculpida e eu próprio aqui na exploração tenho uma pequena mostra do que se pode fazer. A minha ideia inicial era criar uma estrutura que permitisse no máximo visitas duas vezes por semana e depois era fornecida uma casca de avestruz para a pessoa trabalhar.

SR – Isso hoje não é feito?

JD - Hoje temos menos coisas do que há algum tempo atrás porque estamos numa fase de remodelação. Os ovos saem do campo e vão diretamente para um cliente na Bélgica, ou seja, são todos exportados. Agora há pouco motivo de interesse, mas isso não quer dizer que no futuro se mantenha assim, antes pelo contrário. Temos reprodutores, mas menos, porque mudei alguns para uma propriedade no Cartaxo e vendi outros porque outra das minhas ocupações é fazer projetos para outras empresas que se querem instalar no negócio. Até ao início deste ano éramos a maior produção de avestruzes em Portugal, porque a nível nacional éramos a empresa com mais reprodutores.

SR – Mas qual a razão para ter vendido os avestruzes?

JD - O avestruz tem uma vida em cativeiro de cerca de 70 anos, mas enquanto na natureza põem 12 a 14 ovos por ano, em cativeiro, em Portugal, graças à luminosidade, cada fêmea põe uma média de 60 ovos anualmente. Como as avestruzes nascem com os folículos que vão dar origem a todos os ovos que vão pôr e em cativeiro elas produzem muito mais, têm um período de vida reprodutiva de cerca de 30 anos. Montei a exploração em 2000 e quando as vendi no início deste ano tinham cerca de 12 anos de produção de ovos e estavam ainda com uma fertilidade muito boa, mas se esperasse dez anos já tinha passado a fase ideal para os vender. Assim, aproveitei, vendi e entrei num período de renovação, que permite que haja mais produtores.

SR – Em Portugal há mercado para esta produção?

JD - Em Portugal o mercado existe, o que não existe é oferta regular e por isso o nosso mercado restringe-se ao exterior, onde há sempre procura. O único problema para os pequenos produtores é que, para exportação, são necessárias grandes quantidades e isso exige a cooperação de várias empresas. Agora quero também experimentar criar animais num sistema diferente que nunca foi implementado em Portugal. Nesta produção, até agora, os avestruzes nasceram em incubadoras, criados por humanos, e quero experimentar criar reprodutores com o sistema de pais adotivos em que os avestruzes são criados no campo. Neste sistema, nascem sem qualquer influência direta do ser humano e na teoria são melhores reprodutores. No sistema que utilizámos até agora, com influência direta humana, nota-se que a fertilidade dos avestruzes baixa quando, por exemplo, quem trata dos animais vai de férias.

SR - Porque não há uma oferta regular em Portugal?

JD - Não há uma oferta regular devido ao fator risco. O avestruz demora cerca de um ano a estar pronto para abate, precisa de atingir um peso vivo entre os 90 e os 100 quilos. É preciso investir durante um ano, porque não se consegue fazer contratos sem oferta, mas se depois essa promessa de contrato falha, é muito penalizador. Se não se conseguir colocar os animais em abate, todos os dias que ficam a mais na exploração é prejuízo. É um ciclo vicioso, pois ninguém arrisca um investimento para ter uma oferta regular, e por isso quem tem acaba por vender para o estrangeiro, onde a procura é constante.

Forneci três mil plumas à Joana Vasconcelos para forrar aquele helicóptero que está exposto em Versalhes. As plumas têm de ser retiradas aos animais adultos porque depois de secas começam a estragar-se mas não caem e assim não nascem novas plumas. Mesmo para o próprio animal, no ritual de acasalamento, isso pode afetar a fertilidade, mas às vezes não se faz isso devido à dificuldade da operação. As penas são também utilizadas para a indústria automóvel e para a informática, para limpar o hardware. Não havendo abate não há nada destes produtos, daí também a necessidade de aparecerem mais explorações, porque se torna mais fácil gerir eficientemente os vários negócios que existem. Esta maior dinamização do mercado pode significar um crescimento da produção e a venda a crescer a nível interno.

SR - Tem um nível interessante de rentabilidade económica?

JD - No papel é excelente, mas cabe a cada um fazer com que a exploração funcione. O avestruz, em particular, tem muitas condicionantes mas que pode ser muito interessante desde que seja feito com conhecimentos e precauções. Pessoalmente não tenho razão de queixa, tenho feito as coisas funcionarem e contínuo a remar contra a maré. Mais uma vez, o facto de aparecerem outros criadores abre mais portas para outros locais.

Para se ter uma ideia, cheguei a ter um animal que entrou em Portugal por dez mil euros, os ovos eram vendidos a 150 euros e os pintos a 250 euros. Parece que estamos a falar de um negócio da China que toda a gente quer iniciar, pois, apesar de ter um investimento inicial muito elevado, depressa se mostra rentável. Houve um boom na altura das vacas loucas e simultaneamente surgiu uma empresa que vendia pintos a quem quisesse engordá-los, desde que as pessoas lhes comprassem ração para os avestruzes. Essa empresa comprometeu-se a adquirir os animais para abate mas os produtores tinham de alimentá-los 14 meses em vez dos habituais nove ou dez meses. Como mesmo assim era rentável, as pessoas queriam fazê-lo, até que a empresa começou a ir buscar os animais, abateu-os e comercializou-os sem pagar aos produtores, o que fez com que estes fossem à falência. Isso depressa se soube e as outras pessoas que tinham alimentado os avestruzes não os entregaram e como não havia alternativas para escoar o produto de acordo com o que foi gasto, venderam-se esses animais abaixo do custo de produção. As empresas oportunistas ofereciam um valor muito baixo e por isso quem estava a fazer as coisas bem feitas, com margens reais de lucro, não vendia. Isto foi um ciclo que demorou muito a normalizar, porque aqueles que tinham sido enganados não voltaram a engordar animais e os outros produtores que vendiam ao custo de produção não tinham compradores porque o mercado habituou-se a preços irreais. As coisas neste momento estão estabilizadas, mas não dinamizadas.

SR - Como caracteriza esta empresa neste momento?

JD - Neste momento, tudo o que eu conseguisse produzir, conseguia vender, por isso é uma fase boa. Por outro lado, optei por não fazer este caminho sozinho porque acho mais sustentável e saudável aparecerem mais explorações que permitam outro nível de empenho e a diminuição do risco. Quando criei a exploração tinha a capacidade de abater cem animais por mês, cerca de três toneladas de carne. Isto é um investimento muito grande para se fazer a nível individual. Eu próprio comecei a empresa com dois sócios e depois comprei a parte deles e até agora nunca consegui cumprir o projeto na totalidade, e o turismo foi um desses casos. Ao comprar o projeto sozinho tive de procurar caminhos alternativos e preferi ter lucros menores mas escoar mais cedo, porque quanto mais longe se for no processo, maiores são os lucros, mas maior é o risco. Para além de contas da eletricidade de cerca de 600 euros, o único matadouro que abate avestruzes é perto de Castelo Branco, o que implica gastar muito dinheiro no transporte dos animais e é necessário pagar tudo a pronto quando esperamos entre 60 e 90 dias para que nos paguem. O problema nem é esse mês ou mês e meio que esperamos até ser pagos, é se esse cheque não chega. Falta-me pouco menos de 3 anos para pagar o empréstimo e não tenho estrutura para aguentar o rombo de uma falta de pagamento porque fico sem dinheiro para alimentar os restantes animais que estão na exploração.

SR - O projeto inicial, com outras ambições, está abandonado?

JD - Como tínhamos aqui incubações semanais, era sempre na mesma altura da semana que cerca de 90 ou cem pintos nasciam. Nessa altura, se tivéssemos visitas, viam-se as várias fases de crescimento, do ovo ao reprodutor. A ideia era associar a componente de criação com um pequeno parque temático para se fazer visitas de estudos. Cheguei a ter algumas de estudantes universitários, mas havia uma componente pedagógica que nunca aconteceu, que juntava as visitas de estudo das escolas com um almoço para as crianças, onde se podia servir carne de avestruz ou um ovo de avestruz estrelado. Estas ideias não estão descartadas mas agora estão em stand-by por tempo indeterminado, porque há uma série de fatores que tinham de ser postos em prática.

Tive outros animais, como emas e gamos, mas tive graves problemas com a insegurança, o vandalismo e os assaltos, e esses fatores pesaram muito nesta decisão, porque estou num sítio bastante isolado e quando cá vêm assaltar, muitas vezes cortam as redes, matam animais e disparam contra mim. Houve uma situação que foi a gota de água, porque tive uma operação conjunta do Núcleo de Investigação Criminal com a GNR e na presença deles fui assaltado, cortaram-me as vedações, mataram duas avestruzes, levaram 30 ovos que estavam no ninho, foram-se embora e a única coisa que as autoridades fizeram foi tirar fotografias e recolher amostras de urina. Houve falta de empenho e medo por parte de alguns elementos e eu senti que é muito difícil estar aqui seguro.

SR – De que precisa para voltar a apostar na vertente turística?

JD - A segurança era um fator fundamental. Os assaltos causaram vários problemas à exploração, porque diminuí o efetivo da população e acabei com certas espécies que estavam cá apenas por serem atrativos turísticos. Houve uma altura em que era frequente ouvirem-se tiros de balas à noite e depois tentavam levar os animais. Depois de várias tentativas de “assassinato”, mataram um animal que estava numa manga de contenção. Noutra vez mataram todos os gamos adultos, fêmeas grávidas e mães com crias. Como estamos a falar em indivíduos locais, pseudo caçadores, isto acontece sempre em alturas em que há festas e copos aqui na região e a seguir vêm fazer estas coisas porque acham giro.

SR - O que acha que pode ser feito para resolver isso?

JD - Se no dia em que montaram cá a operação estivessem preparados para um flagrante e intersectado os indivíduos que vieram cá fazer o assalto, isso teria servido de exemplo para outros e havia alguns responsáveis a pagar pelo que fizeram. Existiria mais sentido de justiça e isso tranquilizar-me-ia muito mais.

SR - Já transmitiu essas e outras preocupações a alguma entidade competente?

JD - Já. Por exemplo, desde que fizeram as obras na autoestrada, os caudais de água mudaram e juntam-se numa baixa pela qual temos de passar para chegar até aqui. No inverno aquela zona fica intransitável e ao passar por lá já parti um motor de um automóvel e tenho de mudar os rolamentos dos carros anualmente. Quer seja para as visitas para a escola ou para um salão de eventos que está projetado, estas condições não ajudam. Por isso, já pedi apoio várias vezes na junta de freguesia, onde me dizem que há as manilhas necessárias, há o pessoal qualificado para fazer o trabalho e as próprias máquinas necessárias. Mas apesar do presidente dizer que a obra tem viabilidade, já passaram vários mandatos e a obra ainda não foi feita. A própria GNR, quando o jipe está na oficina não pode vir cá quando faço queixa de um assalto porque com o carro ligeiro que têm não conseguem passar por aquela zona.

SR – Como vê o potencial turístico desta atividade aqui na região?

JD - Um amigo meu tinha uma exploração de avestruzes em Vila Nova de Milfontes e as pessoas que lá iam começaram por pedir uma água ou um refrigerante e ele pôs uma máquina de bebidas. Depois pediam gelados e ele resolveu colocar uma máquina de gelados. Depois teve pedidos para fazerem lá festas de aniversário e ele montou um local onde as pessoas podiam fazer piqueniques. Mais tarde, perguntaram se não era possível existir um espaço onde almoçar e ele montou uma cozinha e contratou um cozinheiro e mais tarde acabou por montar um espaço de turismo rural. Neste momento é uma exploração de turismo rural de muito boa qualidade, mas aquilo surgiu inicialmente porque havia pessoas interessadas em ver o avestruz. Para isso acontecer aqui eu precisava de sentir segurança por parte das autoridades, porque continua a haver um sentimento de impunidade, e era necessário melhorar as acessibilidades.

www.ostrichland.pt


Pedro Brinca e Rita Marques - 11-09-2012 18:34

setubalnarede



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