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Alentejo - Piratas no mar, assaltos em terra
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Alentejo - Piratas no mar, assaltos em terra

Corsários, piratas, coalhavam outrora o mar. No litoral português erguem-se ainda fortificações com que procuravam defender-se as populações costeiras dos ataques corsários. Mesmo numa costa tão pouco povoada como a que se estende ao longo do Alentejo: em Sines, em terras do Pessegueiro, em Milfontes.

Fernando-António Almeida | sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Viajante e veraneante, ao leitor, ferveroso amador das águas litorais, frequentador devoto das praias do Sul, não há-de estranhar-lhe que, em alguns dos sítios mais pitorescos da costa, muitas vezes guindadas a arribas altaneiras, muitas vezes postadas ao rés do mar, lhe surjam fortificações, mais ou menos bem conservadas umas, outras bastante arruinadas, quando não arruinadas de todo. São obras de defesa militar do litoral português, construídas sobretudo a partir do século XVI, estruturas cuja edificação foi muito intensificada no século seguinte. Estendem-se de Caminha à foz do Rio Douro, vêm por aí a baixo, multiplicam-se nas embocaduras do Tejo e do Sado. Vão vigiando a costa até Sagres, e daqui até Castro Marim, limite extremo do litoral algarvio.

O convite, desta feita, obedece precisamente a esse propósito: realizar uma viagem de pendor castrense pelas praias do Sul. Propor ao leitor que, a partir do extremo da margem esquerda do Rio Sado, percorra a costa alentejana e a costa algarvia em busca das praças-fortes litorâneas que, quer os malefícios do tempo e da natureza, quer os malefícios dos homens, não tenham ainda tido ocasião de fazer desaparecer de todo da face desta nossa terra.

Ainda em busca daquelas que o esforço dos mesmos homens tenha conseguido recuperar e restaurar, como se verifica em alguns casos felizes. E, para já, que a viagem é larga, fiquemo-nos pelo Alentejo. Ora, quem iniciar este percurso pela costa sul de Portugal, a costa alentejana; quem tiver vogado já no estuário do Tejo, saído barra fora até Cascais; quem tiver espreitado o troço de costa que se estende pela face meridional da compacta Serra da Arrábida, vai, cruzado o Rio Sado, deparar-se com uma extensa língua de areia que dá início à península de Tróia. Seguindo daqui até Sines, irá percorrer um litoral de terras baixas e arenosas, onde à beira-mar se levantam tão só as formações dunares. Passará junto a Melides, onde achará uma lagoa, e, porque vem a conto, há-de recordar Fernão Mendes Pinto mais os seus companheiros que, corria o ano de 1523, aqui foram desembarcados pelos corsários franceses que os tinham aprisionado em pleno alto mar. Passará o viajante ainda junto à lagoa de Santo André e à lagoa da Sancha, até que se há-de deparar com um cabo altaneiro e rochoso, o promontório em que se ergue a cidade de Sines, a formar quase a única baía capaz de servir de porto de abrigo em toda esta costa norte, que se estende entre Tróia e Sagres.

Turcos de Argel:
Pois bem. Entre Tróia – a romana Tróia – e Sines (ela também testemunha da presença romana), o viajante não encontrará em todo o litoral uma só obra militar de defesa, ao menos uma obra digna desse nome. Quer isto dizer que, bem entendido, este percurso em busca de fortalezas marítimas, iniciado em Tróia, acabará por ter o seu ponto de partida na já distante Sines, percorrida que foi uma boa metade da longa costa que margina todo o Alentejo.

Em matéria de fortificações, antes de mais, em Sines, o leitor há-de atentar no antiquíssimo castelo erguido sobre a baía. Apresentando outro fácies, há-de vir de longes tempos, talvez pré-cristãos, de tempos romanos, já que a seu lado foram descobertos tanques de salga (cetárias), datados desta época. Nos tempos modernos, talvez mesmo antes de 1640, o castelo de feição medieval foi dotado de dois baluartes, virados ao mar, para defesa da baía. No entanto o sistema defensivo seria mais tarde – lá por 1680, por engenho de João Roiz Mouro – completado por um forte, o da Senhora das Salas (nome inspirado no da ermida vizinha), erguido na ponta poente da enseada.

Ao que se diz, esse forte das Salas deverá identificar-se com o hoje recuperado forte do Revelim. Só que, pela sua reduzida escala, a fortificação não parece mostrar robustez capaz de dar conta do recado: a missão de cruzar fogos com o castelo, com o Pontal, no outro extremo, de modo a poder cobrir e defender toda a ampla baía. Antes parece um reduto complementar de uma fortaleza mais poderosa, quem sabe se aquela possante massa edificada que vemos, a cair lá do alto para o portinho pesqueiro, expressa por um forte paredão levantado sobre a avenida marginal. Seja ou não seja, fique-se o mistério por aqui, se mistério o há.

Posto isto, não passará Sines sem lhe recordarmos como aqui (e por aqui: em Milfontes, no Pessegueiro…) viveu o italiano Alexandre Massay, um dos mais activos engenheiros militares que ao seu tempo trabalhou em Portugal, aonde chegou em 1598. Nem passará sem lhe recordarmos como, nesta Sines, em 1629, foi aprisionado e levado a Argel um filho seu, Paulo Massay, que com outros saíra ao mar a combater corsários turcos que assaltavam uma nau do Brasil ao largo da então vila.

Rumo ao sul, sempre em matéria de fortificações marítimas, fiquemos suspeitando como o portinho de Porto Covo – uma Calheta rochosa, agreste e apertada – terá possuído, em tempos, para sua defesa, uma fortificação, certamente levantada de modo a dominar a cala onde se abrigam os barquinhos pesqueiros. Dela, porém, hoje nada resta. Nem sequer a sua memória, se atentarmos no dizer das gentes que hoje aqui vivem. Desta perda vai, no entanto, compensar-nos com alguma generosidade o forte do Pessegueiro, situado um pouco mais a sul, o forte de terra (o «forte da Ilha, de dentro»), ultimamente recuperado e mantido nos seus traços arquitectónicosprincipais.

A fortaleza parece ter começado a ser construída ainda em tempo de Filipe II, no final do século XVI. Destinar-se-ia a proteger o porto artificial que aqui se projectava, pela mão doutro italiano, o bolonhês Filipe Terzi, com recurso a um paredão que faria a ligação da terra firme com a ilhota fronteira. Vizinha de Porto Covo, a fortaleza defenderia também o seu portinho. Já na ilha (ilha perceveira?), velho entreposto pré-romano, depois ocupado por Roma (é ver-lhe os restos dos tanques, das cetárias), o desenho do seu forte, hoje muito arruinado, deveu-se ao acima referido engenheiro Massay, que o projectou em 1590.

E, em matéria de defesa costeira, estamos quase a terminar o percurso por este litoral alentejano. Resta-nos Milfontes, porta aberta para a vila de Odemira a que, noutro tempo, Milfontes se ligava por navegação fluvial. A Milfontes saqueada no fim do século XVI, em 1582, pelo capitão corsário turco Murat Rais que, no assalto efectuado à vila, pôde cativar alguns dos moradores.

Estava então a vila sem defesas, mas o seu forte, situado no interior da foz do Rio Mira, na sua margem direita, não tardaria a ser levantado, duas dezenas de anos mais tarde, sob direcção daquele mesmo Mouro, engenheiro. Dedicado a S. Clemente, ainda hoje subsiste, como propriedade privada, tendo sido transformado em discreta unidade hoteleira.

Desgraças do padre-cura
Para um mais claro entendimento desta questão que tem por protagonistas nómadas corsários e povos de beira-mar, aqui se apresenta o exemplo infeliz de um cura de almas que, por muito devoto e dedicado à sua religião, acabou por ser capturado e levado para terra de Mouros, donde não regressou senão quando, por esmolas, se fez chegar aos seus raptores a quantidade de dinheiro sonante que, pese a serem Muçulmanos, lhes parecia que deveria valer um ministro de religião sua rival.

O desaire conta-se em meia dúzia de linhas. Terá sido pelo início dos anos 90 do século XVI que tudo aconteceu. Milfontes, na foz do Rio Mira, era então terra desguarnecida de fortaleza que pudesse opor-se a inimigo vindo por mar.

Porque tivesse mil fontes ao seu redor, era bom local para os navios corsários fazerem aguada – nos Aivados, no Malhão… – tarefa que tinham por velho costume. Aqui desembarcados nestes arredores, caso se não se apercebessem de vigias nem tivessem suscitado sinais de rebate nas gentes locais, tentariam sua sorte de assaltantes de terra alheia. Dissimulados com a noite, buscando a protecção da natureza, progrediriam terra dentro os nossos piratas, tratando de apanhar desprevenidos os habitantes de Milfontes. E, com isto, em seus dias felizes terão conseguido capturar os mais desprevenidos, fazendo-os prisioneiros.

Desta vez, porém, chegados à vista da barra, foram logo os Mouros sentidos. Foi quanto bastou para que o povo inteiro desertasse a vila, enfronhando-se campos fora, com o reverendo pároco feito comandante dos assustados foragidos. Só que, correndo e fugindo, na companhia do rebanho, lembra-se de repente o pastor daquelas almas da preciosa custódia que lhe ficara abandonada na igreja.

Sem hesitar, volta atrás, regressa à aldeia, penetra cautelosamente no templo. Em suas mãos segura o precioso Santíssimo Sacramento. Só que, ao deixar furtivo a casa do Senhor, logo se depara com uma banda feroz de Turcos e de Mouros a rodeá-lo, que os corsários tinham entretanto alcançado o casario de Milfontes.

Capturado, eis então o pobre cura caminho do cativeiro da terrível cidade de Argel. Ele e mais uns quantos menos precavidos paroquianos seus, que nem todos alcançaram correr mais velozes que os Mouros. Em Argel, o padre, um frade de Santiago, longos anos penará sua desdita. Até que, enfim, um dia, resgatado, volta à Milfontes natal, a terra que tão cristãmente pastoreava, e tudo acabou em bem. Quanto aos outros seus descuidados patrícios, quem sabe se voltaram, se ficaram por Argel, se se mantiveram cristãos, se se fizeram corsários argelinos, se se fizeram muçulmanos. É que deles
não reza mais a nossa estória.

Este artigo integra a edição nº 3 (IIª série) da Revista Epicur.

cafeportugal



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