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A porta do celeiro arrombado
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A porta de um celeiro arrombado à machadada em 1918 pelos trabalhadores agrícolas de Vale de Santiago (Odemira), para conseguirem algum alimento para si e para as suas famílias, acompanha uma exposição, recentemente inaugurada nesta localidade, intitulada “Portas que abrem portas”.

“A porta faz parte da colecção etnográfica da Câmara de Odemira desde 1999, tendo sido doada por Joaquim Maurício da Conceição Rosa, que a recebeu de António José Maria Rosa”, escreve o Diário do Alentejo, de hoje (nº 1624, de 7 de Junho, pág.5).

Segundo este semanário baixo-alentejano “trata-se da porta que foi arrombada à machadada por um grupo organizado de trabalhadores rurais em Vale de Santiago, durante as greves e fomes de 1918, para distribuir pela população o trigo guardado no celeiro de um lavrador local, António Eduardo Júlio”, pode ler-se no texto que acompanha a porta.

Os trabalhadores rurais de Vale de Santiago “foram então severamente perseguidos, mas um lavrador da região, também activista, José Júlio da Costa, terá tentado interpor-se e negociar com o governador civil uma solução que poupasse os trabalhadores a atos de retaliação ou a punições excessivas”.

O lavrador “foi, contudo, traído no acordo que julgara ter obtido. Houve violências e abusos nas perseguições e dezenas de trabalhadores rurais foram presos e deportados para África. Numa decisão pessoal, José Júlio da Costa parte para Lisboa e assassina a tiro, na estação do Rossio, o então Presidente da República Sidónio Pais”.


A porta do celeiro arrombado

Posted on 9 de Abril de 2013

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(foto Al Gharb)

Aplainadores de Sons é o espetáculo que na próxima sexta-feira, na Antiga Fábrica de Moagem Miranda em Odemira, levou músicos a convidar três carpinteiros de S. Teotónio a transformarem o seu trabalho de carpintaria em música e som. Um concerto “para portas que rangem, que se aplainam e se martelam, bate à porta da História do celeiro arrombado no Vale de Santiago, em 1918.”

A porta do celeiro arrombado dá o mote e anuncia o projecto do futuro Museu de Odemira, que se apresenta na iniciativa O Museu Somos Todos.

Merece sempre recordar Vale de Santiago.

Vivia-se em 1918, como resume-nos Constantino Piçarra (aqui), «num contexto de forte agitação social contra a guerra e os seus efeitos, a que o governo da República responde com a suspensão das garantias constitucionais a 20 de maio de 1917 e a declaração do estado de sítio, em Lisboa, a 12 de julho, Sidónio Pais, a 5 de dezembro de 1917, avança para a revolução financiado pelos grandes proprietários agrícolas alentejanos, com o apoio do Partido Unionista.» Não tarda a contestação , que  «vai culminar na marcação, pela União Operária Nacional [anarco-sindicalista], da greve geral de 18 de novembro de 1918. Esta greve que, de uma forma geral, se salda num fracasso vai ter uma forte adesão no distrito de Beja, mais concretamente em Vale de Santiago, concelho de Odemira. Aqui, de 18 a 22 de novembro, os assalariados rurais, dando vivas aos sovietes e à revolução social, ocupam algumas herdades e assaltam os celeiros, dividindo entre si o trigo. A esta revolta sucede-se uma brutal repressão desenvolvida pelo exército e Guarda Nacional Republicana, em estreita articulação com os proprietários agrícolas. Dezenas de grevistas são presos e, posteriormente, deportados para África.
No mesmo território em que ocorre este movimento revolucionário está instalada uma comuna, a “Comuna da Luz”, mais concretamente na herdade das Fornalhas Velhas. Esta comuna tinha sido fundada em 1917 por António Gonçalves Correia, caixeiro viajante, natural de São Marcos da Ataboeira, concelho de Castro Verde. Guiado pelo seu ideal anarquista de raiz tolstoiana, Gonçalves Correia, acompanhado por 15 companheiros, incluindo mulheres e crianças, funda esta comuna onde a subsistência é assegurada pela actividade agrícola e pelo fabrico de calçado. Acusado de ser um dos instigadores da sublevação dos grevistas em Vale de Santiago, Gonçalves Correia é preso dia 29 de novembro, em Beja, e enviado para a prisão do Limoeiro, em Lisboa, e a “Comuna da Luz” é dissolvida pelas forças militares que ocupam o território.»

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«Na aldeia do Vale de Santiago o povo percorre as ruas dando vivas à Revolução Social e aos camaradas da Rússia, ocupam as terras da freguesia, colando nas portas dos “montes” papeis brancos anunciando que os burgueses tem os dias contados e dando vivas aos Sovietes Portugueses. Não houve qualquer tentativa de divisão de terras. O que presidia à ocupação das terras e da própria aldeia era a perspectiva da “greve geral expropriadora”. Como diz Francisco Mestre no seu depoimento, queriam até o contrário – “Tudo expropriado. Nós éramos contra as partilhas…” Assim dividiram apenas o trigo. Como dizem outros sobreviventes “o povo estava na posse de tudo e muitas familias cheias de fome, sem um pó de farinha”. No centro da aldeia havia um celeiro, pertencente ao maior agrário da freguesia, António Eduardo Júlio, onde se encontravam 13 moios de trigo e ele se recusava a pôr à venda. O povo decide expropriá-lo, afim de abastecer os que tinham fome.

Francisco Mestre tocou o simo a rebate e todo o povo se juntou. Um sapateiro de Panóias, Félix, arrombou a porta com um machado e os trabalhadores tomaram conta do trigo.

Porvir, a propósito destes acontecimentos, afirma:

” (…) Em seguida os grevistas percorream as ruas dando vivas à Greve Geral, à Revolução Social, aos camaradas da Rússia e durante a noite espalharam papeis com os seguintes dizeres: Viva a Greve Geral, o Grupo dos Soviets PortuguesesAbaixo os malandros que têm os dias contados. No dia 19 um numeroso grupo de 60 homens armados de espingardas, pistolas e bombas, tomou o ponto mais alto na defensiva.”»

Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas, “Os trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo. Ocupação de Terras no Vale de Santiago”, 1982: p.74



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