Quinta, 18 Julho 2013 05:22    PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Vila Nova de Milfontes
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Vila Nova de Milfontes

António de Castro Caeiro
 

Para Clarisse de Castro Caeiro 

A estrada rolava a sul. Havia copas a taparem o sol. Famílias encontravam-se com jornais diários e adolescentes atravessavam o Rio. Apanhava-se a corrente de feição. Podia ir ter-se à foz com ondas de assustar. Mas o Rio levava à margem.

Os amigos encontravam-se todos os anos. A voz mudara. O sexo tinha orientações. Havia a corte que se fazia. Havia o mundo inteiro. É o mundo inteiro o tempo inteiro? É o mundo e o tempo a vida?

De ano para ano não havia reconhecimentos. Ficavam quem falava do que lia e do que conhecia. No mundo, há só o que se lê dele e o que fizeram de nós.

Desço ao rio. A foz é sempre a mesma. A foz já sem ninguém que na altura era brilhantemente quem tinha 15 anos. Desapareceram. Há castas. Há gentes. Havia gente tão gira que não se sabe no que se tornou.

Todos os anos aparece gente. Na altura, eram os mais velhos. A iniciação de tudo O que foi? Morreram muitos. Outros, sobreviveram. No fim da noite, no fim da vida, no fim do dia, no fim da hora...

Era o princípio. O princípio de quem não tem sexo, de quem não tem pátria, de quem só há família e praia. Na praia, encontram-se garfos com a data dos anos cinquenta. O vento traz lendas de quem foi e quem veio e quem foi.

Os amigos não precisam de estar a sul, à distância da geografia e de 365 anos de envelhecimento. A francesa linda de 16 anos que escreve em francês e nunca mais volta. O rosto da vida na cara concreta de quem tem olhos azuis e cabelos negros. Ah! F...-se. Onde estás tu?

As dunas não morrem, transformam-se. Mas o rio: o rio leva para o mar. O rio aponta ao Atlântico. Trazem uma traineira sem marinheiros nem pescadores. Sobe o rio. Como se subir o rio, fosse voltar à origem. À origem? De onde partem os barcos? Da montanha.

A criança aponta os mortos. A mãe diz:- "É o destino". A criança pensa que o destino é um homem.

Não. É a vida.

Os náufragos regressam a terra. Os náufragos regressam à superfície.

É o destino.


COMENTÁRIOS

Era o princípio...havia o mundo inteiro...

apreciadora (seguir utilizador), 2 pontos , 9:47 | Terça feira, 16

Fons signatus

Passei vezes sem conta os dias da minha

infância e nunca fiz muito para resistir a

essas impressões. Deixo o tempo das

emoções passageiras durarem a brevidade da

sensação que provocaram. Nada a fazer.

Sinto os meus sentidos habitarem os lugares

do passado e perseguidor vou com os meus,

em manhã de domingo de verão, na charrete,

pelos caminhos que levam ao mar. Meu

tio, recém saído da marinha, conduzia o

cavalo

e quando passávamos S. Bartolomeu - um

pouco acima onde havia um pinhal -, parávamos

para descanso.

O mais que poderia fazer era esquecer de-

pressa e fugir,mas não

o tão longe no tempo torna-se perto ( )

e atinjo e procuro como refúgio

o grito que todos dávamos logo a seguir

"O mar!", "o mar"; era como o que vim a

encontrar em Heródoto, alguns anos depois, É

que nós - salvo o meu pai -,não éramos

gente do litoral. A Beira Alta trazia toda a

sua força e por mais que se fugisse para o mar,

acompanhava-nos a solidão dos bosques. Chora

a água de uma fonte, breve,

sobre todos os meus sentidos

e a marcha apressada do cavalo, porque é sempre a

descer até ao mar,

faz de mim o que a natureza quis. E

os olhos parecem não saber ,então, outra coisa

nenhuma.

João Miguel Fernandes Jorge.

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Só trocava Heródoto Ver comentário

António Caeiro (seguir utilizador), 1 ponto , 14:03 | Terça feira, 16

2- Como se subir o rio, fosse voltar à origem...

apreciadora (seguir utilizador), 2 pontos , 17:33 | Terça feira, 16

Somos el tiempo. Somos la famosa

parábola de Heráclito el Oscuro.

Somos el agua, no el diamante duro,

la que se pierde, no la que reposa.

Somos el río y somos aquel griego

que se mira en el río. Su reflejo

cambia en el agua del cambiante espejo,

en el cristal que cambia como el fuego.

Somos el vano río prefijado,

rumbo a su mar. La sombra lo ha cercado.

Todo nos dijo adiós, todo se aleja.

La memoria no acuña su moneda.

Y sin embargo hay algo que se queda

y sin embargo hay algo que se queja.

Jorge Luis Borges, Son los ríos, Los Conjurados, 1985.

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Smile

timsoldier (seguir utilizador), 1 ponto , 11:26 | Terça feira, 16

Bolas li na diagonal, teve de ser para a saudade não me trair aqui neste sítio onde trabalho.

Revejo-me tanto nisto, afinal nesses tempos de adolescência passava eu as minhas férias meia dúzia de quilómetros mais acima, na praia do Malhão. Parece que foi ontem, ou não.

Mais logo com coragem vou ler na horizontal.

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Malhão é Ver comentário

António Caeiro (seguir utilizador), 1 ponto , 14:03 | Terça feira, 16

Lindo!

adrivi (seguir utilizador), 1 ponto , 13:50 | Terça feira, 16

!!!!

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Muito bom!

JimMorrison27 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:24 | Terça feira, 16

Smile

Melhores cumprimentos.

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Actualizado em ( Quinta, 18 Julho 2013 05:41 )
 

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