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Bicos: a única freguesia alentejana que desapareceu do mapa
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Bicos: a única freguesia extinta no Alentejo

 
07-02-2014 9:55:11
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A Junta de Freguesia de Bicos, no concelho de Odemira, foi extinta. A única em todo o Alentejo. Todas as outras que sofreram alterações foram agregadas. Na terra, porém, ficou em funcionamento uma delegação, precisamente no edifício onde funcionava a junta desaparecida. Lá encontram--se os mesmos funcionários ao serviço e os habitantes continuam a recorrer aos seus labores. Afinal o que mudou? Como se procedeu à divisão? Eleitores divididos pelas duas freguesias vizinhas, pelas mesmas que os acolhiam antes de Bicos ter chegado a freguesia. Em 1988. Texto Bruna Soares
Fotos José Ferrolho
O novo mapa da reorganização administrativa do território das freguesias foi desenhado e no maior concelho do País, Odemira, determinou, segundo a Direção Geral de Administração Interna (DGAI), a extinção da Junta de Freguesia de Bicos. A única extinta em todo o Alentejo. Todas as outras que sofreram alterações, tanto em Odemira como na região, de acordo com a DGAI, foram “agregadas”. Os eleitores de Bicos foram distribuídos pelas vizinhas freguesias de Vale de Santiago e Colos. 
Recorde-se que a reorganização administrativa do território das freguesias foi implementada no ano passado e atestada pela Lei n.º 11-A/2013 de 28 de janeiro. 
Na estrada nacional que segue em direção a Bicos não foi retirada a sinalética que indica a entrada na desaparecida freguesia, mas também os marcos que determinam os novos limites territoriais ainda lá não foram colocados. 
O sol, numa manhã de inverno, prevalece sobre as nuvens e a estrada com poucas curvas leva até à aldeia. Em letras pretas e numa placa de fundo branco pode ler-se: Bicos. Nas bombas de gasolina abastecem--se os que seguem em direção ao interior. Em sentido contrário ao litoral.  
Os comércios estão de portas abertas e numa das casas pode ler-se: “Vende-se mel”. Talvez daí chegue a explicação para o brasão da extinta freguesia ostentar uma abelha. Brasão, este, que ainda pode avistar-se dentro do edifício que também pompeia, em letras grandes e pintadas a azul, a designação de Junta de Freguesia de Bicos. O brasão está visível em bandeirinhas, penduradas em paredes brancas, mas também em emblemas que repousam nas secretárias. 
O edifício da antiga sede da extinta freguesia tem, numa manhã de segunda-feira, as portas abertas e o horário de funcionamento está definido, o mesmo que se praticava anteriormente. Antes da extinção.
Os funcionários que serviram a população, ao serviço da antiga Junta de Freguesia de Bicos, também se encontram atrás das secretárias, preenchidas por papéis, teclados e monitores de computador. Estão ao serviço. Na verdade, após a reorganização administrativa, continuam no mesmo local de trabalho, porque a Junta de Freguesia de Vale de Santiago, que abrangeu parte dos eleitores da desaparecida Junta de Freguesia de Bicos, decidiu deixar uma delegação na terra. 


“O que as pessoas faziam em Bicos na junta de freguesia continuam a fazer, mas agora na delegação da freguesia de Vale de Santiago. As pessoas pagam, por exemplo, aqui a água, o telefone. Estão aqui os serviços de Correio. Dentro daquilo que me foi possível fazer e olhando às necessidades que as pessoas têm, tentei manter os serviços que já anteriormente eram prestados na aldeia”, explica Florival Silvestre, o último presidente da Junta de Freguesia de Bicos e atual presidente da Junta de Freguesia de Vale de Santiago, eleito nas últimas Autárquicas, já com o novo mapa das freguesias desenhado. 
“Fui o último presidente da freguesia de Bicos e é normal que a nível pessoal me sinta triste e incomodado com uma situação desta natureza, qualquer um ficaria. Julgo também que o sentimento que ficou mais marcado nas pessoas da aldeia de Bicos, que assistiram a todos os momentos da vida da freguesia, é o de frustração, na medida em que acabou o que muitos lutaram para que existisse”, atira. 
Senta-se e repousa a pasta que traz consigo sobre a mesa, enquanto aproveita para deixar o aviso: “Vou manter, enquanto for o presidente da Junta de Freguesia de Vale de Santiago, as letras pintadas que estão ali à porta, a dizer Junta de Freguesia de Bicos”. A delegação, por isso, segundo o autarca, é para manter, pelo menos, até ao fim deste mandato. Daí não ser de estranhar que muitas pessoas da aldeia, no que diz respeito aos serviços que eram prestados no edifício da antiga junta, digam que na prática “ainda não sentiram muitas mudanças com a extinção”.


José Jacinto, 75 anos, habitante de Bicos, de boina na cabeça e casaco envergado, que a manhã acordou fria, espreita o movimento que segue na estrada nacional que atravessa a aldeia. Pertence agora à freguesia de Vale de Santiago, mas garante que o que lhe dava mesmo jeito era ter continuado a pertencer à freguesia de Bicos. “Não acho bem terem feito isto, terem extinguido a freguesia. Ainda são uns quilómetros até Vale de Santiago. Houve outros que ficaram a pertencer a Colos, como é o caso da população de Vales, e que também ficaram magoados, porque Bicos estava mais pertinho”, desabafa. E questiona: “Eu não sei qual foi o lucro que o nosso Governo teve com isto. Eu até digo que a freguesia não desapareceu completamente. A casa da junta de freguesia está lá, as funcionárias estão lá. Se calhar existem é coisas que não serão já ali tratadas. Mas vou lá pagar a minha água, a minha luz”. Então quais foram os transtornos? “Terem terminado com esta freguesia, estarmos mais longe da sede. Terem acabado com ela. Esses é que foram os transtornos. Nunca devia ter acabado”. 
Sentada ao balcão da sua mercearia está Gabriela Custódio. Pega nas faturas dos fornecedores e queixa-se que o comércio já teve melhores dias. “Desde que abriu o Continente em Sines ainda sentimos mais”, desabafa. Antigamente, garante, era diferente. “As pessoas passavam para a praia, a caminho de Vila Nova de Milfontes e de Sines, e paravam aqui em Bicos. Agora está tudo muito diferente. Há cada vez menos dinheiro”. 


Gabriela lamenta terem extinguido a freguesia e, em sua opinião, “Bicos até está mais desenvolvido que Vale de Santiago”, a freguesia a que agora pertence. “Tem mais comércio, bombas de gasolina, estacionamentos, tem outras condições. Não sendo possível, e não tendo nada contra a freguesia que nos acolheu, gostava mais de ter ficado a pertencer a Colos. É mais perto, a estrada está melhor. Há lá médico”, sentencia.
Manuel Penedos, por sua vez, presidente da Junta de Freguesia de Colos, tem consciência que, devido à maior proximidade a Colos, e às boas acessibilidades, muitas pessoas preferiam “ter ficado a pertencer a esta freguesia”. Há algo, porém, em sua opinião, que não pode ser esquecido: “a história”. “Antes de Bicos ser freguesia pertencia maioritariamente a Vale de Santiago e há muitos habitantes de Bicos que são naturais da freguesia que os acolheu e isso teve, claro, de ser considerado”. 
A conversa regressa ao antigo presidente da Junta de Freguesia de Bicos e atual presidente de Vale de Santiago que lembra também que, por outro lado, “houve pessoas que nasceram, por exemplo, há 25 anos e que são naturais da freguesia de Bicos”. “São de uma freguesia que não existe em lado nenhum. Se ao menos tivesse sido agregada era diferente”.  


“É normal que as pessoas se sintam. Têm consciência que Bicos tinha todas as condições para continuar a ser uma freguesia. Tem boas acessibilidades. Conta com vários empresários, talvez esteja aqui instalado um dos maiores apicultores da zona Sul, tem comércio e artesanato. Tem montado, culturas regadas. Enfim…podia ter sido de outra forma. A justiça completa era não ter acabado a freguesia, mas não podendo ser, talvez a agregação, pelo menos, tivesse sido mais justa”, reforça. 
E como se procedeu à divisão da freguesia? “Voltámos a traçar o território pelos limites antigos, antes de Bicos ser freguesia”, completa, por sua vez, Manuel Penedo, presidente da Junta de Freguesia de Colos. “Bicos era uma freguesia relativamente recente. Anteriormente pertencia ao território de Vale de Santiago, a maior parte, e ao território de Colos, nomeadamente a zona do aglomerado populacional de Vales. Uma vez extinta optou-se pela mesma divisão”, explica. 


De acordo com Manuel Penedo, “tentou-se, entre as duas freguesias que acolheram Bicos, que o processo fosse pacífico e o mais justo possível”. E foi isso que aconteceu. Quando chegou à divisão dos bens também não houve discussão. “As freguesias pouco ou nada têm. Tentámos fazer a divisão mais justa e não prejudicar ninguém. Não eram os bens que iam ser um impeditivo. O nosso objetivo é que as pessoas não ficassem prejudicadas com esta nova reorganização”, adianta Manuel Penedos.
Colos, segundo o autarca, ficou “com um veículo. Uma ambulância”. O restante ficou para Vale de Santiago. Que abrangeu uma área muito maior e mais população.
As ruas, pela hora de almoço, despovoam-se de gente. No seu quintal, de enxada em punho, avista-se António Nuno, habitante de Bicos, que ao dizer a que freguesia pertence ainda se confunde. É o hábito. Primeiro diz Bicos e logo a seguir corrige. Vale de Santiago. “É que nasci na freguesia do Cercal, mas a minha geração é de Vale de Santiago. Comecei a pertencer também a Vale de Santiago. Depois passei para a freguesia de Bicos, que é aqui que eu vivo, e agora mudaram para lá a freguesia novamente. Tem sido esta confusão. O presidente da junta agora é o presidente de lá e daqui. De qualquer maneira a freguesia dos Bicos passou para a freguesia do Vale de Santiago. Não achámos bem, mas mudaram-na, que vamos fazer?”. 
O “Diário do Alentejo” contactou também o executivo da Câmara Municipal de Odemira, relativamente a este assunto. No entanto, não foi possível, até ao fecho desta edição, obter uma resposta. 




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Actualizado em ( Sábado, 08 Fevereiro 2014 23:45 )
 

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