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No tempo em que havia elefantes nas praias alentejanas
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No tempo em que havia elefantes nas praias alentejanas

 
21-02-2014 9:32:19
  
 

O quadrado de areia onde hoje estende a toalha para um merecido banho de sol pode ter sido, em tempos, pisado por “veraneantes” que chegavam a pesar até sete toneladas. Surpreendido? Pegadas fossilizadas encontradas no território costeiro entre Porto Covo e Vila Nova de Milfontes, e recentemente divulgadas por uma equipa de estudiosos do Geopark Naturtejo da Meseta Meridional, revelam isso mesmo. Que uma espécie de elefante, extinta há mais de 30 mil anos, na sequência do último período da Idade do Gelo, terá deambulado em manadas pelos campos dunares do litoral alentejano, alimentando-se da folhagem então existente. 

Texto Carla Ferreira Ilustração Susa Monteiro

A natural erosão do mar sobre as arribas costeiras tem permitido pôr a descoberto um pouco do que era a paisagem do sudoeste alentejano há 120 mil anos atrás. Blocos rochosos que as vagas vão soltando das falésias e que, por vezes, ainda guardam, como que por milagre, o registo de quem os pisou até às derradeiras extinções no período do último Glacial. Revelando surpresas. Tão espantosas como a provável presença de uma espécie já extinta de elefantes. O chamado Elephas antiquus, ou elefante-de-presas-direitas, que, segundo divulgou recentemente uma equipa do Geopark Naturtejo da Meseta Meridional, deverá ter-se deslocado lentamente em pequenas manadas pelos campos dunares do litoral alentejano, alimentando--se da folhagem aí existente. 
Há décadas que as dunas fósseis da costa alentejana intrigam os geólogos e arqueólogos e o que dizem as últimas conclusões é que estes areais, então seguramente mais extensos, seriam o habitat de animais como lobos, raposas, lebres, veados, grandes aves, como a cegonha ou a garça, e – contra as expetativas mais excêntricas – como os elefantes. É o que parecem revelar as pegadas encontradas na região pelo grupo de estudiosos, mais concretamente no território compreendido entre Porto Covo e Vila Nova de Milfontes. Marcas que aparecem ora dispersas, ora “organizadas sequencialmente em trilhos”, e cujas características, ao nível da forma ou do padrão, “permitem relacioná-las com espécies ou grupos de animais que se encontram presentemente extintos ou que ainda vivem na área do Parque Natural [do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina] e regiões adjacentes”, revelou ao “Diário do Alentejo” o paleontólogo Carlos Neto de Carvalho, especialista em evolução do comportamento animal no registo fóssil e um observador atento do território. “Interessei-me pelas dunas fósseis da costa alentejana há 14 anos, devido sobretudo à raridade dos vestígios paleontológicos nestas formações”, lembra. E adianta que foi a descoberta, “quase por acaso”, das primeiras pegadas na Ilha do Pessegueiro que deu origem a “um trabalho mais sistemático e necessário de cartografia ao longo de toda a costa, uma vez que este tipo de achados é relativamente raro a nível mundial e completamente desconhecido, até então, em Portugal”.
De facto, as pegadas de proboscídeos (grupo a que pertencem os elefantes, os mastodontes e os mamutes) encontradas no litoral alentejano, “correspondem a algumas das primeiras descobertas feitas no mundo”, e “as primeiras atribuídas seguramente à espécie Elephas antiquus”, testemunhando, segundo o paleontólogo, a presença de manadas destes animais até à sua derradeira extinção na Europa, que se estima ter sido há pouco mais de 30 mil anos.
Saber quem eram os antigos ocupantes das praias alentejanas, como coexistiam e como utilizavam este território no seu quotidiano são algumas das informações que podem ser obtidas através das referidas pegadas, à falta de condições para a fossilização de restos ósseos. Mas há outras conclusões que podem ser retiradas desta reconstituição do clima e da paisagem ao longo dos últimos 120 mil anos. E que serão certamente bastante úteis, a cientistas, técnicos e decisores, para uma “previsão e gestão das mudanças futuras que naturalmente ocorrerão, sejam elas alterações climáticas, alterações da dinâmica litoral e necessária adaptação do ordenamento da orla costeira”, acredita Carlos Neto de Carvalho. Ao nível das oscilações da água do mar, o estudioso dá o exemplo das pegadas de grandes veados encontradas na Ilha do Pessegueiro, que demonstram que “o litoral alentejano era formado por um campo de dunas muito mais extenso do que aquele que se observa atualmente, com mais de cinco quilómetros de largura de acordo com estudos anteriores”. Oscilações que terão sido motivadas por diversas causas, nomeadamente por alterações climáticas, adianta, sendo possível determinar, através do registo fóssil, que os últimos elefantes-de-presas-direitas terão percorrido a região “em clima progressivamente mais seco e frio, que resultou do último período de glaciações que afetou o mundo”.


A lebre da praia do Malhão Entretanto, as pegadas milenares das praias do litoral alentejano já deixaram a sua marca na ciência, com a identificação Leporidichnites malhaoi, que significa, à letra, “vestígio de leporídeos encontrado no Malhão”. Concretizando, no topo de um grande rochedo da praia do Malhão foram identificados um conjunto de trilhos que mostram a típica marcha por salto da família das lebres e dos coelhos, comportamento de locomoção que “nunca tinha sido descrito no registo fóssil”. Ficou assim inscrita uma nova espécie para a ciência, segundo as regras do Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, o que significa que, no futuro, “se forem descobertos trilhos com as mesmas características, em qualquer parte do mundo, os cientistas dar-lhe-ão o mesmo nome, Leporidichnites malhaoi, que aqui se propôs pela primeira vez”, sublinha o paleontólogo. 
Além dos lobos, raposas, lebres, veados e grandes aves, reconhecidos pelos vestígios encontrados, está também a ser descrita, de momento, uma ocorrência de pegadas de um felídeo de média dimensão, provavelmente atribuíveis ao lince-ibérico, hoje praticamente extinto em Portugal. O que é bem ilustrativo, sobretudo neste último caso, de comunidades de animais “com características modernas”, ou seja, que vivem ou viveram até recentemente nos habitats da costa alentejana, tendo sido despojados progressivamente como efeito da pressão humana sobre esses habitats.
Mas nem sempre houve dedo humano nos processos de extinção. O período para o qual remetem as pegadas da costa alentejana, o dos últimos 120 mil anos, abrange as grandes extinções biológicas que se deram com o último Glacial, “em que as massas de gelo polares e ‘eternas’ desceram para a latitude da Grã-Bretanha”, lembra Carlos Neto de Carvalho. Neste contexto, a Península Ibérica, entre o Atlântico e o Mediterrâneo, “estava mais defendida dos rigores climáticos”, o que permitiu que aqui se mantivessem algumas das últimas populações de animais que viveram na Europa antes da derradeira extinção, como o elefante-de-presas-direitas.  
Recorde-se que, até aos primeiros trabalhos que foram efetuados, conheciam-se apenas, em Portugal, pegadas de dinossauros que remontavam há mais de 90 milhões de anos. Estas, bem mais recentes, têm uma importância “significativa”, já que algumas delas “foram aqui descritas pela primeira vez a nível europeu ou mundial”, frisa Carlos Neto de Carvalho.   


Sol, mar, paisagem, cultura e… geologia  Os achados agora divulgados são fruto de anos a calcorrear a região, de São Torpes a Sagres, umas vezes de barco, outras vezes mesmo a nado, em busca dos blocos rochosos onde se desenha a passagem da fauna pré-histórica. Não foram necessárias quaisquer técnicas invasivas, como as usadas nas escavações arqueológicas. Na verdade, tudo o que houve que fazer foi esperar pela natural erosão das arribas costeiras. E, uma vez descoberta uma rocha com pegadas, efetuar o registo do local e o respetivo estudo, construindo-se moldes em materiais transportáveis (resinas acrílicas), quando tal se mostrou possível. Não há outra forma de salvaguarda e eventual futura exposição ao público, tratando-se de blocos rochosos de grandes dimensões. “São consequência e fazem parte da dinâmica costeira pelo que, depois de descobertos, estão sujeitos à destruição completa pelos mesmos agentes erosivos que nos facilitaram o trabalho”, explica o estudioso. 
Mas mesmo com estas condicionantes, não restam dúvidas de que este património geológico será mais um fator a juntar-se ao interesse turístico que o litoral alentejano já suscita e que se estende muito para além dos tradicionais, e mais óbvios, recursos sol e mar, como demonstra o sucesso do percurso pedestre Rota Vicentina. “Deveremos procurar o que nos torna diferentes e essa diferença pode estar na oferta de uma experiência de História Natural entre dois mergulhos nas límpidas águas da costa alentejana”, defende Carlos Neto de Carvalho, considerando que não faltam exemplos, também em Portugal, “de sítios de importância geológica que podem ser preservados e valorizados no local, atraindo milhares de visitantes”. Um deles é o Geopark Naturtejo da Meseta Meridional, em castelo Branco, reconhecido pela Unesco e de que é diretor científico, onde existe o sítio paleontológico Parque Icnológico de Penha Garcia, visitado anualmente por 14 000 pessoas, oriundas de mais de 30 países do mundo. Por experiência própria, deixa então a dica: “Falta na região da costa alentejana um ou mais espaços interpretativos onde estes sítios e achados paleontológicos e geológicos possam estar devidamente interpretados e divulgados, de forma a que este património não se perca e seja valorizado, que sirva de ponto de partida para a organização de uma experiência de lazer e conhecimento diferente”. 


Parentes do elefante asiático 

Os elefantes “antigos” são apenas uma das espécies que poderíamos encontrar em território europeu, recuando apenas algumas dezenas de milhares de anos. Surpreendentemente, hienas, leopardos, auroques (parentes dos touros, mais corpulentos e já extintos) seriam outras. No que toca aos que terão calcorreado os areais do sudoeste alentejano, estamos a falar de um tipo de “parente extinto do elefante asiático”, dada a proximidade genética com esta espécie contemporânea, de nome científico Elephas maximus. “Partilhavam aspetos anatómicos com o elefante asiático mas eram proporcionalmente maiores, atingindo os quatro metros de altura e até sete toneladas de peso”, enumera o paleontólogo Carlos Neto de Carvalho. Quanto às presas que lhe inspiraram a alcunha, sabe--se, através de “raros fósseis encontrados na Europa”, que eram “praticamente direitas” e que “atingiam quase três metros de comprimento”. Um antepassado de peso, cuja presença e vida na região, “num período em que este magnífico animal já se encontraria praticamente extinto em quase todo o mundo”, é agora possível reconstituir. CF




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Actualizado em ( Quinta, 06 Março 2014 16:28 )
 

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