No parque de São Miguel, entre São Teotónio e Odeceixe, há muito que o pessoal se habituou a receber um corrupio de gente que ouve e lê sobre aquele que é considerado um dos melhores campings nacionais. A 22 de julho, celebra 22 anos, mas mantém-se impecavelmente cuidado. É um dos parques com maior densidade de árvores que visitámos, cheira a pinheiros por todo o lado.

Os dois sócios tentam fugir dos conceitos tradicionais no País. Não entregam nada a terceiros, e são os próprios que gerem o self-service, o restaurante, a pizaria e o supermercado tudo para controlarem a qualidade dos serviços. Na esplanada, há cinema depois da sessão de desenhos animados e das notícias. Os bungalows estão separados das tendas, têm uma boa distância entre eles para preservar a privacidade dos clientes, e, para o ano, se o negócio continuar a correr bem, chegará um bungalow com spa, a grande tendência lá por fora.

"Gostamos desta liberdade, não trocava as férias no campismo por um hotel", garante Ana Monteiro, 31 anos, que chegou há um dia com o marido, o filho e a irmã. Desde pequenas que as duas irmãs se habituaram a gozar férias de tenda às costas. Vêm de Gaia e de Amarante, fugindo das praias destruídas pelo mau tempo e à procura dos encantos da Costa Vicentina.

Metemo-nos de novo à estrada, desta vez para entrar na Herdade do Serrão, em Aljezur, onde o parque de campismo se mantém aberto há 25 anos, no topo de uma encosta e com o mar ao fundo. Os enormes eucaliptos abanam com o vento, exalando um cheiro intenso que se mistura com a maresia, vinda da praia da Amoreira, distante apenas uns quatro quilómetros.

Uma dúzia de adolescentes destaca-se entre casais de meia-idade ou com filhos pequenos. Vieram de Faro para festejar os anos de um deles, e, como o orçamento é curto, passam os dias no parque, entre a piscina e a zona de churrasqueira. Um deles, que herdou do bisavô a tenda, já está habituado a estas lides. Ainda assim, desta vez custou-lhe montá-la, mas nem pensar em dar-lhe a reforma.


Acampar com método

Do outro lado da costa, já em águas calmas e quentes, um camping construído à medida dos parques europeus chama muitos clientes ao Parque de Campismo Ria Formosa, onde conhecemos a Rita e o José Ferreira. Está a dois passos de algumas das mais belas praias algarvias e destaca-se pela qualidade dos seus equipamentos. À medida que o senhor Alves percorre o parque, as crianças param a brincadeira para cumprimentá-lo. Tão depressa vai acudir a um miúdo como trocar uma lâmpada ou ajudar alguém em apuros a instalar uma tenda.

Em dez anos, muitas árvores continuam ainda a crescer, mas, para aliviar do calor as zonas com menos sombras, estão a ser colocadas redes para proteger as tendas. A área de bungalows continua a ser aumentada e foi criada uma zona dedicada a residências fixas, muito procuradas por estrangeiros que fogem das suas terras frias e passam uma boa parte do ano por aqui. Ao anoitecer, os morcegos aproximam-se sem medo. O silêncio é quase absoluto.

Na manhã seguinte, seguimos até El Rocío, em Huelva, uma das entradas no Parque Nacional de Doñana. A aldeia é famosa pela romaria anual até à capela da Virgem del Rocío, feita a cavalo e em carroças desde Sevilha. As suas ruas são de areia e, à porta de muitos restaurantes, há argolas para prender os cavalos enquanto se janta. As casas brancas e baixas, de telhados recortados, fazem lembrar o faroeste, mas sem xerifes ou pistoleiros por perto.

À entrada de El Rocío, o Camping La Aldea surge tão discreto quanto os seus clientes. As ruas parecem ter sido desenhadas a régua e esquadro. Existe uma zona para tendas, outra para caravanas e uma terceira para bungalows. Nesta altura do ano, e ainda na ressaca da romaria de junho, o parque não tem viv'alma. Estávamos quase de saída quando entrou a única família equipada com tenda. Rebeca Area, 46 anos, o marido, Emilio Simes, 47, e os filhos, Esteban, 20, e Sarai, 15, vêm das Rías Baixas, na Galiza, onde moram, à procura do sossego e do verde do parque. "Praias boas já temos nós perto de casa", vão dizendo.

Todos os anos, acampam em família, pelo menos durante uma semana. "É uma forma mais barata de visitar cidades, ao mesmo tempo que gozamos a natureza e a tranquilidade do campismo", explica Rebeca. Passa das 9 da noite e a tenda ainda não está montada. Só depois hão de pegar no fogareiro para tratar do jantar. Nós preparamo-nos para madrugar, porque no dia seguinte percorreremos de jipe parte dos 110 mil hectares do Parque Nacional de Doñana, uma das maiores reservas naturais de Espanha, e abrigo de espécies protegidas como o lince ibérico e a águia-real. Um percurso longe das grandes urbes, onde nos sentimos parte da natureza. Como apetece.


 

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