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Em Odemira quase sem parar o comboio lá vai a apitar
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Em Odemira quase sem parar o comboio lá vai a apitar

Santa-Clara/Sabóia

2016-02-12
Sem serviço regional desde 2011, o concelho está ligado a Lisboa e ao Algarve por uma estação quase abandonada e onde o atendimento é feito por uma caixa telefónica

Imagine uma estação de comboios de portas fechadas, sem máquinas de venda de bilhetes e sem qualquer chefe de estação ou trabalhador da CP. Quem chega e lê “retretes” escrito a letrinhas azuis, com setinhas a indicar “mulheres” para um lado e “homens” para o outro, bem pode andar à volta da casinha: as portas estão emparedadas a tijolo, rebocadas e tão bem pintadas de branco que até parece terem sido sempre assim. Telefones públicos? Não há. Café, restaurante, quiosque de jornais? Nada. Confins de um país subdesenvolvido? Errado. Bem-vindos à muito antiga estação de caminhos-de-ferro de Santa Clara-Sabóia, a única a funcionar no concelho de Odemira. Sem bebedouro, sem nem água, mas com muita luz na plataforma, durante a noite. O resto são armazéns abandonados, casas com telhados a ruir e um velhinho depósito de água.

Quem chega tem à sua espera seis banquinhos de rede metálica e dois painéis de azulejos azuis e brancos da Estatuária Artística de Coimbra representando vistas parciais de Sabóia e Monchique. Mas nem pense em roubá-los - a tarefa nem era difícil, que a estação não tem seguranças - que a Refer tem os painéis inventariados na Polícia Judiciária através do projecto SOS Azulejo.

E quem precisar de auxílio pode falar para uma caixa. Literalmente. Trata-se de uma caixa metálica com um botão vermelho. A letras pretas lê-se em letras maiúsculas: “Informações, em funcionamento apenas na ausência de pessoal da Refer”. E mais abaixo: “partidas e chegadas nesta estação, alterações à circulação, carregue no botão para ser atendido”. O MERCÚRIO carrega. E logo uma voz, aproveitando a nossa curiosidade, sussurra: “Boa tarde”.

Lembra-se o prezado leitor do clássico A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz? Quando o serrano Zé Fernandes vai a Paris visitar o amigo Jacinto depara-se com um estranho aparelho de onde sai uma voz humana. O Zé grita: “Oh Jacinto, aqui há um homem! Está aqui um homem a falar dentro de uma caixa!” O amigo responde: “É um Conferençofone…”. A caixa de Eça era de 1901, a nossa funciona em 2016, assim vai o progresso.

A voz masculina informa-nos acerca dos horários dos comboios e até da linha de onde chegam e partem. Questionado sobre as retretes pede um momento. A resposta não demora muito: “Olhe, isso já não sei, está fechada, é?”. Agradecemos e o Conferençofone desliga-se. Mais tarde, usando a Internet, sabemos que uma queixa pode ser feita à Refer.

Telma Neto é uma das passageiras frequentes da linha. “Há onze anos que ando neste comboio, lembro-me da casa de banho aberta e de gente da Refer a trabalhar, mas já não vendiam bilhetes, temos de comprar a bordo”, relata. Tem 32 anos, trabalha em Lisboa, vem à terra, Santa Clara-a-Velha, de quinze em quinze dias. Com a suspensão do regional em 2011, chegou a ter de ir até à Funcheira para apanhar o comboio. Até que em 2013, a CP decidiu uma medida experimental de incluir Santa Clara Sabóia nas paragens do Intercidades e do Alfa. “Há muita gente daqui a trabalhar e estudar em Lisboa e no Algarve, ao fim-de-semana as carruagens enchem-se de estudantes e nos outros dias dá jeito a quem tem consultas médicas em Lisboa”, explica.

Quem mora no litoral de Odemira pode demorar entre uma hora a hora e meia a chegar à estação. Mesmo partindo das localidades do Interior há casos em que a viagem de carro, por estradas cheias de curvas, subidas e descidas, pode demorar entre meia hora e uma hora. 

O parque de estacionamento é muito espaçoso e gratuito. 

A odisseia dos transportes públicos 

A maneira mais rápida de apanhar um comboio no concelho de Odemira é… Esqueça! Se viver no litoral é mais rápido optar pelos autocarros da rede Expressos. 

Se, ainda assim, é fã incondicional do trem de ferro e não se importa de perder algum tempo há algumas possibilidades.

A estação não é intermodal, o que significa que os horários da CP estão desalinhados com os da Rodoviária do Alentejo. Para ir de autocarro de Odemira até uma paragem que fica a 10 minutos a pé da estação, só há um autocarro por dia - entenda-se de segunda a sexta-feira, se não for feriado. Parte às 13h30 de Odemira, passa por Bemposta, Telheiro, Pomar, Taliscas, Voltinhas, Luzianes, Portelinha e Santa Clara-a-Velha antes de chegar a uma paragem a 10 minutos a pé da estação pelas 14h30. A esta hora ainda há dois comboios para Lisboa e dois para o Algarve, mas há que esperar entre alguns minutos até duas horas ou mais, conforme a opção. E prepara-se para esperar alguns minutos extra: os comboios costumam chegar com atrasos entre cinco a dez minutos.

A lei não obriga as transportadoras a compatibilizar horários e estas não parecem muito preocupadas em fazê-lo. Por isso, quem já tem prática, chama um táxi de Sabóia, ainda dentro do comboio. Os taxistas sabem os horários dos comboios, mas a probabilidade de haver clientes é baixa. Praça de táxis na estação, nem vê-la. Apenas os cartões autocolantes com números de telemóveis colados no Conferençofone.

Quem chega só consegue voltar a Odemira de autocarro, se vier no sentido Faro-Lisboa, numa carreira que parte da tal paragem pelas 8h26, nos dias úteis.

Sabóia é a única paragem de comboio em Odemira

 

Sem serviço regional, restam os Intercidades e o Alfa, que andam muito e param pouco. Os comboios continuam a passar, sem parar, pelas outras estações do concelho de Odemira. Vindo do Algarve, o comboio passa pelo apeadeiro de Pereiras, que outrora servia os habitantes de Pereiras-Gare e São Marcos da Serra. Segue para Santa Clara-Sabóia, onde faz uma breve paragem, passa o rio Mira, percorre os quase cem metros do túnel de Horta antes chegar a Luzianes (ainda referida nas placas de trânsito como “estação de Odemira” e é assim que os mais velhos a conhecem). Depois vem novo túnel, com 697 metros, que vê a luz em Vale de Isca, uma antiga gare, hoje demolida, e de que restarão dois depósitos de água ferrugentos para turista ver, antes de passar, sem parar, pela estação de Amoreiras e continuar viagem no distrito de Setúbal.

por Ricardo Vilhenha - (não usa AO)



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