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A distinção dos bons projetos
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AMBIENTE

A distinção dos bons projetos

A sustentabilidade do Malhão

2016-02-12
Um projeto correto e virado para a sustentabilidade é o reflexo de uma profunda compreensão dos nossos lugares

Formado em Gestão Turística e em Economia, pela Universidade de Piemonte, especializado em Gestão de Projetos Ambientais e de Montanha, o Dr. Piana, que tem realizado inúmeras investigações em projetos de Geografia Humana envolvendo a comunidade local do Parque Nacional de ValGrande (Itália), dá-nos a sua visão aquando da sua visita à praia do Malhão.

A Praia do Malhão é a praia mais popular da freguesia de Vila Nova de Milfontes, concelho de Odemira, em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

Um longa praia de areia, protegida por falésias a pique sobre o mar, e guardada por soberbas dunas de rica fauna e flora, lugar de nidificação de muitas espécies de aves e de habitats protegidos pelas diretivas europeias relativas à Conservação da Natureza. Um bom representante do Parque Natural.

A coexistência com o impacto turístico e a delicadeza do lugar permanecia, até agora, fora de controlo: automóveis em grandes quantidades aparcados a granel em lugares abertos no terreno protegido; não havia nenhum transporte público que levasse os turistas à praia; o acesso aos pontos de melhor vista era realizado ao longo de pequenas faixas sujeitas a forte erosão e em constante mudança. Em suma, uma praia de acesso caótico mas de um encanto fortíssimo e com características paisagísticas únicas.

Nos últimos meses o município local colocou um ponto final na situação, tendo o cuidado de criar um parque de estacionamento, uma paragem de autocarro e de construir uma longa passadeira de madeira desde o estacionamento aos vários miradouros e acessos à praia. Mas como é que o fez?

A clareira de terra, anteriormente utilizada para o estacionamento anárquico foi reorganizada através da instalação de uma estrutura caótica, onde não é claro como se deve parar o automóvel (1). Faz-nos pensar se alguém conseguirá estacionar se não houver por ali algum pessoal auxiliar de estacionamento. O mais provável será uma utilização errada por parte de muitos automobilistas.

Uma rotunda antecede a rua que distribui o trânsito pelo estacionamento mas, como se verificou num primeiro teste, não é suficientemente larga para permitir o acesso de um autocarro, para o qual foi construída uma paragem que se encontra para lá da rotunda. Como é possível construir, a partir do nada, uma rotunda que deverá dar acesso a autocarros sem verificar as medias corretas para tal? Penso que seja decerto fruto de um projeto não atento aos detalhes (2).

A partir do estacionamento foi construída uma longa passadeira em madeira que nos leva a alguns pontos panorâmicos e, pelas escadas, à praia. Isso melhora a acessibilidade ao mar, mas não para as pessoas com deficiência que utilizem cadeira de rodas (3-4).

Com estes acessos a atravessar a vegetação em diversos locais será difícil garantir a manutenção constante das plantas, sujeitas a um forte crescimento. A passagem de turistas por entre a vegetação também cria perturbações para as diversas espécies de aves que nidificam entre as dunas e as falésias (5).

A estrutura é sobredimensionada, com pelo menos 4 pontos panorâmicos que nos levam à mesma paisagem e com demasiados passadiços que inutilmente tomaram o lugar dos trilhos preexistentes (6).

Primeiro de tudo, quando chegamos ao Malhão, apercebemo-nos de imediato do forte impacto paisagístico que a nova estrutura tem sobre o perfil das falésias (7). Uma pergunta: mas era mesmo necessário gastar mais de 1 milhão de euros de dinheiro público num investimento de manutenção difícil e onerosa no tempo e, ainda por cima, projetado sem respeitar o ambiente?

Sobretudo dentro de Áreas Protegidas seria bom saber-se realizar trabalhos em harmonia com a natureza e nem sempre e apenas para o serviço e a conveniência do turista. É justo fornecer serviços aos visitantes e proporcionar-lhes uma estadia mais agradável com ofertas de qualidade, mas não à custa de modificar a paisagem dos lugares mais bonitos apenas para um par de meses do ano e sobretudo sem respeitar os parâmetros de funcionalidade e de sustentabilidade económica.

Construir apenas o necessário, com o menor impacto ambiental, com a máxima beleza na forma e o menor custo de manutenção, sempre com o cuidado nos detalhes. É este o paradigma!

Aquilo que torna um lugar turístico num sucesso é a mistura de beleza, acessibilidade e serviço, gerido de forma proativa, pelo município, para proteger a natureza do impacto turístico.

O projeto construído no Malhão não está alinhado com a política ambiental moderna. (8)

Um projeto de maior sensibilidade poderia ter previsto uma passadeira entre as falésias e as dunas, a cerca de 25 metros das escarpas, com pequenos caminhos mantidos em boas condições para se poder descer até à praia e, pelo menos, uma entrada principal com escadas e uma rampa para deficientes.

Limpar e alargar os caminhos existentes seria já garantia de uma forte acessibilidade.

Os pontos panorâmicos não deveriam estar necessariamente todos ligados à passadeira mas poderiam ser construídos pequenos varandins isolados do percurso da passadeira.

Seria útil dotar a zona com pequenos cestos de recolha de resíduos a cada 200 metros e proporcionar uma área didática, usando por exemplo a passadeira, que explicasse as particularidades da fauna e da flora do Sudoeste Alentejano e que lembrasse as boas regras de funcionamento de uma praia. Poder-se-ia também inserir algumas notas acerca da pesca tradicional ou de outras tradições que são sempre boas para informar os turistas ou alguma visita escolar.

Em conclusão, é justo que a Câmara de Odemira tenha decidido dotar a praia do Malhão de um parque de estacionamento, de uma paragem de autocarro e de uma passadeira, mas o modo como o fez e a qualidade de construção deixam muito a desejar.

Um projeto correto e virado para a sustentabilidade é o reflexo de uma profunda compreensão dos nossos lugares, de um amor que se sente e nos impele a cuidar deles.

A realização de obras feitas à pressa e sem verdadeiros estudos de impacto ambiental deixam de ter em consideração as subtilezas que distinguem os bons projetos.

mercurioonline



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